Com a mulher, Sérgio Cabaço abriu o restaurante “3 Bicas” em Leiria

Os emigrantes têm desenvolvido negócios nas sete partidas do mundo, com sucesso em diferentes áreas. No mesmo sentido, muitos dos que regressam a Portugal têm investido na criação ou desenvolvimento de empresas. A restauração, a manutenção industrial e o imobiliário são apenas três dos muitos exemplos existentes no distrito de Leiria.

O chefe de cozinha Sérgio Cabaço chegou à Suíça com dois anos, na companhia da irmã, de quatro, para se juntarem aos pais que emigraram à procura de uma vida melhor, na década de 1960. Estudou, tirou o curso de cozinha e depois de 17 anos a trabalhar na restauração decidiu regressar a Portugal.

Na bagagem trazia a vontade de abrir um estabelecimento, além do prestígio pelo trabalho realizado no “Zum Kaiser Franz im Rössl”, quando este restaurante recebeu uma estrela Michelin. No projeto está acompanhado pela mulher, Teresa Grácio, que conheceu na Suíça e é especialista em contabilidade.

Curiosamente, nenhum dos membros do casal é natural de Leiria. Ele é de Carapinheira, em Montemor-o-Velho, e ela de Pombal. Por isso, pode parecer estranho a escolha de Leiria para abrirem um restaurante, mas a explicação é simples. O “3 Bicas”, situado próximo da Fonte das Três Bicas, nasce por influência de uma amiga do casal que o “puxou para Leiria”.

Sérgio Cabaço viveu na Suíça até aos 35 anos e só exerceu a profissão de cozinheiro. “É a única coisa que sei fazer e trabalhei sempre em restaurantes como empregado, nunca tive um negócio próprio”, explica o chefe, adiantando que decidiu investir em Portugal por duas razões: “para montar um negócio lá era preciso mais dinheiro e maior capacidade de investimento e também queríamos que o nosso filho, de 5 anos, começasse a escola em Portugal”.

Na perspetiva de Sérgio Cabaço “valeu a pena a 100% ter estado na Suíça”. “Mas não estranhei Leiria e não tenho saudades, porque esta cidade é fabulosa. Nem noto diferença, quase não precisamos de carro, temos tudo e na Suíça também conheço cidades semelhantes”, explica.

Em Leiria “há mais qualidade de vida”. “Ganhamos menos, mas aqui o sol começa logo em maio e podemos ir à praia. É outra coisa. E também ajustei o horário do estabelecimento, deixando mais tempo para estar com a família; partilhando a qualidade de vida e a qualidade de trabalho”, destaca o chefe do “3 Bicas”.

Quanto à possibilidade de voltar a emigrar é perentório: “Nunca se pode dizer não. Mas hoje digo que não emigro, embora agora seja muito mais fácil sair de Portugal do que era na altura dos meus pais. Antigamente era mesmo ir, ganhar dinheiro, vir para trás e fazer uma casa. Era diferente”.

Manutenção

A expectativa de Germain de Matos, um jovem lusodescendente que decidiu investir em Portugal, assenta no facto de a sua empresa, a GM Hidráulica, instalada no Alto do Vieiro, em Leiria, prestar “um novo serviço de assistência à indústria”.

Germain de Matos lançou a GM Hidráulica em Leiria

“Este negócio já existe em França e eu trabalhava no ramo. E decidi instalar uma empresa em Portugal porque não havia ninguém a fazer esta assistência, de 24/24 horas e sete dias por semana”, explica Germain de Matos, que sempre viveu em França, com exceção do período de ano e meio em que estudou em Portugal.

A GM Hidráulica, além de vender tubos hidráulicos, conexões, óleos e materiais de borracha para manutenção e montagem industrial, apostou na reparação de avarias ‘in loco’. Neste sentido, dispõe de serviço de oficina móvel, que se desloca ao local onde as reparações são necessárias.

As empresas com camiões, máquinas agrícolas, equipamentos industriais, de construção e obras públicas, máquinas do sector aeroportuário, barcos, gruas de descarga e moldes são potenciais utilizadores do serviço.

“Este método faz ganhar tempo às empresas, evitando aos clientes ter de desmontar os tubos, ir à loja adquirir os produtos necessários e regressar para voltar a montá-los nos equipamentos, perdendo horas em deslocações e espera, quando nós prestamos os serviços no local”, conta o fundador da GM Hidráulica, inaugurada em fevereiro deste ano.

Em França há muita concorrência neste género de serviços. Por exemplo, a empresa em que Germain Matos trabalhava, em Paris, “tinha 100 carrinhas, 100 técnicos e faturava entre 25 e 30 milhões de euros por ano”. Por isso, o jovem, de 27 anos, que começou a trabalhar aos 15 anos (enquanto estudava) e exerceu diversas profissões, desde pedreiro a mecânico de automóveis, decidiu instalar-se em Portugal e testar o conceito.

“Quando começou a pandemia, porque fechou quase tudo e éramos dos únicos a trabalhar, fomos muito solicitados”, refere Germain de Matos, lamentando que “os portugueses prefiram perder uma hora ou mais em vez de investirem mais 20 euros num serviço que aumenta a rentabilidade”.

O projeto corresponde a um investimento de 100 mil e o seu fundador reconhece que está numa fase de avaliação: “Da ideia as pessoas gostam, mas é difícil aceitarem pagar um bocadinho mais para ganharem dinheiro em tempo. A exceção são os dias feriados, em que recebemos mais pedidos de assistência, porque somos os únicos a trabalhar. A minha intenção é fazer uma avaliação do negócio no final do ano e depois decidir em conformidade com o resultado”.

“É um serviço que não existia e as empresas em Portugal estão muito habituadas ao conceito desmontagem/loja/montagem. Mas o nosso sistema é o que realmente é mais usado na generalidade dos outros países da Europa”, conclui Germain de Matos.

Diversas artes

Em Paris, Teresa Borges concluiu os cursos de Belas Artes e Medicina Dentária. Agora, a ex-emigrante é responsável pela HTO Portugal, que atua no sector imobiliário e prestação de serviços na região oeste.

Teresa Borges, responsável pela HTO Portugal, em Peniche

“Fui para França com seis meses, morei em Paris 37 anos, regressei para Portugal e tive o meu processo de instalação sozinha. A uma certa altura, por causa da barreira da língua, achei que outras pessoas iriam precisar de mim e decidi abrir a HTO Portugal [em Peniche], que se dedica à venda de casas com prestação de serviços”, explica Teresa Borges.

A prestação de serviços aos clientes, provenientes de países francófonos, abrange áreas como a fiscalidade, a saúde ou a legalização dos automóveis. “Especializei-me em vender casas com a prestação de serviços incluída, o que significa que os clientes ficam instalados em seis meses, com a casa legalizada, os seguros feitos e tratadas as burocracias ao nível das convenções entre países na áreas da saúde e social, entre outros aspetos”, adianta.

A HTO Portugal tem instalações no país desde 2008, mas foi a partir de 2014 que Teresa Borges assumiu a responsabilidade de trabalhar o mercado francófono da região oeste e as “pessoas têm aderido bastante ao projeto, que tem tido sucesso”.

Quanto ao seu percurso anterior, que a levou por caminhos bastante diferentes, explica: “Fiz Belas Artes e Medicina Dentária. Sou artista, mas para ganhar a vida tive de me sujeitar e trabalhei num consultório em Paris. Depois quando vim para cá, e como falo cinco línguas, achei que poderia haver um mercado para mim e de facto estou a trabalhar no imobiliário. Não me sinto mal por isso, até pelo contrário”.

A principal razão para sair de Paris foi o “clima de insegurança” que começou a sentir depois da década de 1980. Por isso, regressou a Portugal e também para garantir melhor qualidade de vida às duas filhas. “Se hoje me disserem para fazer o caminho em sentido contrário não faço. Vim e não estou arrependida”, reforça a consultora imobiliária, que também se dedica a iniciativas solidárias, como a que mobilizou 50 dos seus clientes para oferecerem produtos alimentares a pessoas carenciadas da região oeste, durante os primeiros quatro meses da pandemia.