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Sociedade

Cabazes confortam consoada marcada pela pandemia

Mais de 1.300 famílias com dificuldades financeiras dos concelhos de Leiria, Batalha e Porto de Mós receberam uma ajuda extra para passar a noite de Natal com mais alento. Bacalhau, azeite e o tradicional bolo-rei prometem adoçar estas casas.

Foto: Joaquim Dâmaso

O bacalhau está de molho. Quinta-feira, dia de Natal, estará pronto para ser confecionado para o jantar da consoada.

Com ele foi entregue também azeite, enchidos e queijo, um bolo rei, uma caixa de bombons e um frasco de doce.

Os alimentos fazem parte do cabaz que foi distribuído a quase 700 famílias do concelho de Leiria e que pretende aconchegar agregados familiares que, nos últimos meses, mas não só, sofreram uma quebra de rendimentos provocada pela pandemia.

Leiria não é caso único e são várias as Câmaras da região que, nos últimos dias, se desdobraram em entregas de cabazes às famílias mais necessitadas e que estão identificadas junto dos serviços municipais de ação social.

Na sexta-feira [dia 18], Gonçalo Lopes ajudou algumas das 18 juntas de freguesia do concelho a carregar os cabazes para distribuir durante o fim de semana.

A União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes é a que tem mais situações identificadas, 220, seguida da UF de Souto da Carpalhosa e Ortigosa, com 58 famílias, e Marrazes e Barosa, com 53. As freguesias de Santa Catarina da Serra e Chaínça (52), Arrabal (43) e Caranguejeira (30) seguem-se na lista.

“Para nós é um investimento muito importante porque representa também um sentimento de solidariedade, não só próprio da época natalícia, mas também reforçado por aquilo que são as preocupações que teremos que ter na recuperação económica. Mas, sobretudo, em torno daquilo que é uma recuperação económica que seja solidária e que não deixe ninguém para trás”, assegurou Gonçalo Lopes.

Sem termo de comparação com outras edições, já que é o primeiro ano que a Câmara de Leiria realiza a ação solidária, o presidente lembra que “possivelmente haverá mais famílias, mas que, porque não tiveram conhecimento da iniciativa ou por vergonha, não foram contempladas”.

“Este é um cabaz que ajuda a preparar uma refeição tradicional da ceia de Natal, para um dia que queremos que seja de felicidade, de alegria e de algum conforto”, salientou.

Pandemia agrava

Foto: Joaquim Dâmaso

Pedro Pedrosa, presidente da junta de freguesia da Bajouca, é dos autarcas com menos trabalho de distribuição. Tem “apenas” sete caixas para entregar. É a única junta onde o número de pedidos de auxílio é inferior a uma dezena. As situações de dificuldade já estavam identificadas antes da pandemia e a entrega do cabaz funciona como um “gesto solidário e simbólico”.

Também em Amor, Paula Gil distribui 20 cabazes. “Uma ajuda importante para estes agregados familiares, pois a pandemia não está a dar tréguas e os tempos que se seguem podem ainda ser complicados”, refere a autarca que há poucos meses assumiu a presidência da junta de freguesia.

Em Monte Redondo e Carreira os números são mais elevados. Às 35 famílias que já recebiam ajuda, com o auxílio da Conferência São Vicente Paulo, mais 23 solicitaram apoio este Natal.

“Muitas são de classe média e só agora ganharam coragem para contar a sua situação. Este não é um processo fácil, reconhecer que se está com dificuldades e pedir ajuda. Algumas são famílias jovens que, com a pandemia, um dos elementos ficou desempregado ou então porque surgiu uma doença no seio da família e, de alguma forma, os rendimentos foram afetados”, conta Céline Gaspar.

A tendência, avisa a autarca, será de agravamento das dificuldades nos próximos meses e, por isso, se “as ajudas existem, são para ser entregues a quem precisa. Hoje são vocês, amanhã sou eu”.

Além das famílias também algumas instituições de apoio à terceira idade, corporações de bombeiros e centros de saúde receberam um cabaz como “gesto singelo” pelo desempenho da sua atividade ao longo do ano.

Em Porto de Mós, a aposta passa por produtos que sublinhem a dieta mediterrânica. O apoio usual é reforçado nesta quadra: há cabazes natalícios que, de acordo com os números da autarquia, são entregues a 250 famílias.

Apoio reforçado

Foto: CMMP

Os cabazes estão a ser entregues a instituições sócio caritativas e às conferências de São Vicente de Paulo “que, por sua vez, farão chegar às famílias que foram identificadas com o apoio das juntas de freguesia”, aponta Jorge Vala, presidente da Câmara de Porto de Mós. A ideia passa por possibilitar “às famílias mais vulneráveis do concelho a possibilidade de confraternizar uma ceia de Natal condigna”.

Igualmente com vincado paladar mediterrânico, em Serro Ventoso, freguesia de Porto de Mós, o azeite é a oferta da junta local para as famílias. Por causa da pandemia, faltou a azeitona no único lagar da freguesia “a trabalhar à moda antiga”. A junta de freguesia decidiu, ainda assim, oferecer um garrafão de azeite a todos os agregados da freguesia nesta quadra, anuncia Carlos Cordeiro, presidente da Junta.

No vizinho concelho da Batalha, a distribuição de cabazes também tem marcado os últimos dias. De acordo com a autarquia, “mais de duas dezenas de lojas comerciais, minimercados, padarias e pastelarias de todas as freguesias”, aderiram ao projeto de levar cabazes a várias famílias do concelho. No final da semana passada, eram já 374 famílias abrangidas.

“Esta iniciativa solidária é habitual”, adianta Paulo Batista Santos, presidente da Câmara, que refere que “este ano em particular foi possível alargá-la a mais famílias fruto da colaboração do comércio e empresas locais”.

Foto: CMB

A campanha recolheu produtos alimentares e envolveu aquisições no comércio local de cerca de 12 mil euros, sendo que os apoios entregues às famílias representam um valor superior. Para além dos cabazes, a medida contemplou a entrega de lenha e fornecimento de gás, para o período de inverno.

Distribuição de bolo-rei substitui almoço convívio para 560 idosos

Seria um almoço e uma tarde de convívio entre todos os maiores de 64 anos residentes na União de Freguesias de Monte Redondo e Carreira (UFMRC).

Habitualmente, mais de 400 idosos aderiam ao momento festivo. “Este ano não há condições para fazer algo deste tipo”, esclarece Céline Gaspar que, devido a um contacto próximo que testou positivo à Covid-19, ela própria permaneceu em isolamento nas últimas semanas.

Por este motivo, no domingo, não participou na distribuição de um bolo-rei e votos de boas festas aos 560 idosos dos vários lugares da freguesia que se inscreveram na iniciativa: Paço, Graveto, Monte Redondo, Carreira, Aroeira, Lavegadas, Pinheiro, Fonte Cova e Sismaria.

Com 40 voluntários disponíveis para uma “rápida e curta passagem”, devidamente distanciada, a volta começou cedo. Tão cedo que, para alguns, ainda foi de pijama e roupão que abriram a porta.

Não foi o caso de Manuel e Lurdes. Ele preparava-se para montar na bicicleta quando foi surpreendido pela “comitiva” de dois elementos da Junta de Freguesia e dois militares da GNR, que o recordaram do uso da máscara. Lurdes estava dentro de casa, com a restante família. Foi pela primeira vez ao almoço convívio dos idosos da UFMRC em 2019, quando completou 65 anos. Queria voltar este ano mas a pandemia, como em tantas outras coisas do quotidiano, trocou-lhe as voltas. “Vou no próximo ano”, disse.

O desejo foi partilhado por muitos outros seniores ao longo da manhã, quando desejosos de dar um abraço a quem os visitava, eram “travados”. Sentem falta do convívio, da conversa e até se dizem cansados de usar máscara. A maioria tem uma no bolso ou à entrada mas ao soar da campainha acabam sempre por abrir a porta sem ela.

Os cuidados a ter para evitar o contágio da Covid-19 quando alguém visita as casas, nas saídas à rua e até na noite de Natal foram alguns dos conselhos que os militares da GNR de Leiria, que acompanharam a ação da UFMRC, e que habitualmente estão integrados no programa Idosos em Segurança, aproveitaram para deixar, tal como fizeram dias antes, na mesma área geográfica junto de outros idosos que visitaram e que o REGIÃO DE LEIRIA acompanhou.

Textos: Carlos Santos Almeida e Marina Guerra
Fotos: Joaquim Dâmaso, MG, CMB e CMPM

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