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Marinha Grande

“Não haverá mais regeneração natural” no Pinhal de Leiria

Especialista defende que já se fechou a janela de oportunidade para o contributo da regeneração natural na recuperação do Pinhal de Leiria.

“Convirá esclarecer que não haverá mais regeneração natural, pois passaram três primaveras e já não há semente no solo capaz de germinar”.

O alerta é deixado por Octávio Ferreira, engenheiro silvicultor que durante vários anos trabalhou no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), num artigo em que faz a análise das medidas previstas para reflorestar aquela mancha florestal.

Já se fechou a janela de oportunidade para o contributo da regeneração natural na recuperação do Pinhal de Leiria.

O especialista reporta-se ao ponto de situação feito por Nuno Banza, presidente do ICNF, numa reunião com o Observatório do Pinhal do Rei, a 13 de outubro, na Marinha Grande.

Nessa reunião, o ICNF adiantou que estão executados 1.178 hectares de rearborização (cerca de 12% da área ardida em 2017) e até 2022 serão concretizados mais 1.344 hectares. A rearborização do Pinhal de Leiria, no total, contempla 3.970 hectares até 2024.

O restante será assegurado por regeneração natural, explicaram os responsáveis do instituto. A regeneração natural, “a melhor e mais económica solução de rearborização em qualquer estação, parece ser inferior à inicialmente prevista”, aponta o especialista. Octávio Ferreira admite que tal se fique a dever “à intensidade do incêndio que queimou e tornou estéril boa parte da semente do arvoredo com mais de 30 anos de idade, do qual era expectável provir regeneração natural”.

Preocupações que persistem

No artigo – que o leitor poderá ler, na íntegra no final da página – Octávio Ferreira analisa os dados revelados no terceiro aniversário do incêndio que consumiu 86% do Mata Nacional de Leiria, em outubro de 2017.

O antigo dirigente do instituto, durante largos anos ligado à gestão do Pinhal de Leiria, manifesta algumas preocupações. Entre elas, consta a falta de referência às retanchas, isto é, à replantação das falhas.

“Havendo talhões com bastantes plantas secas, nem é indicada qualquer verba para esta operação”, aponta. “Existem centenas de hectares de plantações onde somente se vê mato, encontrando-se as plantas dominadas, mesmo sufocadas, pois não se fez a monda de matos que é essencial para o sucesso das plantações”, afirma.

O antigo dirigente manifesta ainda a surpresa pela falta de atenção pelas áreas de lazer que fazem parte do Pinhal: “nada é dito sobre a recuperação das áreas de lazer e de convívio, o que nos parece uma falha e dever ser corrigido tão breve quanto possível”.

Com cinco milhões de euros previstos no Orçamento do Estado para investir, no próximo ano, no Pinhal de Leiria, o especialista aplaude a decisão, embora admita não ser possível investir a totalidade da verba em 12 meses. É que, explica, será necessário “elaborar projetos, levá-los a concurso, aprová-los e executá-los, isto para além da continuidade das ações já a decorrer e das anteriormente anunciadas para o mesmo ano”.

Confira o artigo de Octávio Ferreira:

Pinhal do Rei, os números

Em 15 de outubro, 3 anos depois do grande incêndio que dizimou quase por completo a Mata Nacional de Leiria (MNL), reuniu o “Observatório Pinhal do Rei”, na Marinha Grande, tendo o Presidente do Conselho Diretivo do ICNF, Eng.º Nuno Banza, apresentado as intervenções já realizadas para a recuperação da MN, bem como as ações a promover até ao ano de 2024.

O vídeo da reunião está disponível na plataforma you tube, de onde se retirou e é possível visualizar a informação que se segue.

1. No caso da arborização e de acordo com o anunciado, em 3 anos (2018-2020) foram plantados 1178 ha, estando aqui incluídos os talhões arborizados por entidades públicas e privadas, pois o respetivo mapa apresentado assim o indica e que serão seguramente metade da área plantada.

De 2021 a 2024 a área anual prevista para intervenção duplicará relativamente aos anos de 2018 a 2022, pois naquele período desenvolver-se-ão ações em 992,5 ha/ano, conforme indicado no quadro.

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No total, a área intervencionada de 2018 a 2024 (7 anos) será de 6492 ha, ou seja 68,5% da área percorrida pelo fogo, sendo 4715 ha de plantações e 1777 ha de aproveitamento de regeneração natural, caso tudo decorra conforme anunciado e seja efetivamente confirmado, o que é um rácio interessante (927 ha/ano), mas ficam desde já alguns reparos e muitas preocupações, no que diz respeito às plantações já efetuadas:

  1. Nada é referido sobre retanchas (replantação das falhas), havendo talhões com bastantes plantas secas, nem é indicada qualquer verba para esta operação;
    1. Existem centenas de hectares de plantações onde somente se vê mato, encontrando-se as plantas dominadas, mesmo sufocadas, pois não se fez a monda de matos que é essencial para o sucesso das plantações, mas também nada é dito sobre o corte desses matos, nem são atribuídas verbas;
    1. As plantações que não foram adubadas podê-lo-ão ser agora com uma adubação de cobertura, para rapidamente as plantas se desenvolverem e se libertarem dos matos, mas de igual modo nada é referido a esse respeito;

Em qualquer dos casos anteriores é urgente que as situações sejam corrigidas em benefício das plantações já realizadas.

      2. Tendo sido criadas algumas dúvidas sobre a regeneração natural do pinheiro bravo na MNL no pós-fogo, convirá esclarecer que não haverá mais regeneração natural, pois passaram 3 primaveras e já não há semente no solo capaz de germinar.

A área com regeneração natural, que é a melhor e mais económica solução de rearborização em qualquer estação, parece ser inferior à inicialmente prevista, provavelmente devido à intensidade do incêndio que queimou e tornou estéril boa parte da semente do arvoredo com mais de 30 anos de idade, do qual era expectável provir regeneração natural e que é uma situação inédita.

3. Relativamente aos povoamentos florestais que não arderam, são referidas limpezas de matos em 763 ha até 2024 conforme quadro, ou seja sensivelmente metade da área total de povoamentos, o que é manifestamente pouco, de resto todo o pinhal que sobreviveu ao fogo devia estar já limpo de matos, de modo a prevenir males maiores.

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Trata-se de pinhal adulto que tem de ser cuidadosa e inteiramente preservado como se de uma relíquia se tratasse, de modo a servir de mostruário da elevada qualidade da MNL para os próximos vindouros, pois somente daqui a 50 anos haverá outros povoamentos adultos similares.

4. No que diz respeito a investimentos o ICNF prevê investir 5 vezes mais no período de 2021 a 2024 (6295500 €) do que se investiu de 2018 a 2020 (1215140 €), neste caso na arborização (de parte) dos 1178 ha plantados e na limpeza de matos em 526 ha de povoamentos adultos.

A beneficiação das redes viária (28 km) e divisional (10 km) desenvolver-se-á de 2021 a 2024, conforme dito pelo Sr.º Presidente do ICNF, embora no quadro apresentado na reunião seja indicado como investimento feito de 2018 a 2021, o que é um lapso, pois não ainda há obra feita.

Assim, se se considerarem os períodos 2018-2022 e 2021-2024, neste quadriénio o investimento/ano será quase 3 vezes superior ao investimento/ano naquele quinquénio, conforme quadro, o que exigirá uma forte disponibilidade financeira e empenho por parte do ICNF e dos seus recursos humanos, designadamente dos colegas e demais funcionários que prestam serviço na Marinha Grande.

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O investimento total previsto para 7 anos (2018 – 2024), no valor de 9 084 205 €, inclui ainda o controlo de invasoras lenhosas (333 000 €), a reabilitação de áreas afetadas pelo furacão Leslie (500 320 €) e a prevenção contra pragas e doenças (368 000 €).

Surpreendentemente, nada é dito sobre a recuperação das áreas de lazer e de convívio, o que nos parece uma falha e dever ser corrigido tão breve quanto possível, dadas as excelentes condições que a MNL apresenta para o recreio, a tradição e a componente social da MN tão do agrado das populações locais.

O anúncio recente da aprovação de uma verba adicional de 5 milhões de euros, no orçamento de Estado, para investimento em 2021 na MNL, parecendo-nos excelente pode não vir a concretizar-se na sua totalidade, dado o elevado montante a investir em somente 12 meses, pois sabemos que será preciso elaborar projetos, levá-los a concurso, aprová-los e executá-los, isto para além da continuidade das ações a decorrer e das já anunciadas para o mesmo ano.

Octávio Ferreira
MG, 25/11/2020