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Consultório RL

Bexiga hiperativa: Tratamento também passa por mudanças comportamentais

Estima-se que a síndrome da bexiga interativa afete cerca de 1,7 milhões de portugueses com mais de 40 anos. Ricardo Borges, urologista, explica as causas mais comuns e como pode ser tratada

Ricardo Borges
Urologista
Leiria

1.700.000

Calcula-se que cerca de 1 milhão e 700 mil portugueses com mais de 40 anos de idade possam sofrer de BHA. Esta é uma síndrome que afeta homens e mulheres de todas as idades e que pode ter um impacto significativo na qualidade de vida, aumentando os “scores” de depressão e reduzindo a qualidade do sono. A prevalência global da BHA é semelhante em homens (16%) e mulheres (16,9%), apesar desta se desenvolver em idades mais avançadas nos homens e destes apresentarem menor prevalência de urge-incontinência (2,6%, comparativamente a 9,3% nas mulheres)

O que caracteriza uma bexiga hiperativa?

A síndrome de bexiga hiperativa (BHA) é um conjunto de sintomas que têm origem numa perturbação do armazenamento de urina na bexiga: o músculo da parede da bexiga (detrusor) contrai-se mesmo quando esta contém um volume reduzido de urina. O músculo da bexiga parece transmitir mensagens erradas ao cérebro, dando a sensação de que a bexiga está mais cheia do que realmente está. As contrações involuntárias diminuem o controlo que a pessoa tem sobre a bexiga e dão origem aos sintomas que caracterizam a BHA.

Quais são os principais sintomas?

As pessoas que sofrem de BHA têm, normalmente, uma necessidade urgente de urinar, vão com frequência à casa de banho, mas conseguem chegar a tempo e não têm perdas urinárias. Nalguns casos, o controlo pode ser difícil e levar à perda involuntária de urina – é a chamada incontinência urinária de urgência.

Quais as causas mais comuns?

As causas podem ser neurogénicas (traumatismo com lesão medular, AVC, esclerose múltipla, demência, doença de Parkinson, lesões medulares, neuropatia diabética); não neurogénicas (insuficiência cardíaca, insuficiência venosa periférica, enchimento vesical rápido, medicação – diuréticos, betanecol -, mudanças posturais, tossir, andar), ou idiopáticas (quando não é identificada).

São frequentes os efeitos psicológicos, com sentimentos de medo, vergonha e culpa. Preocupações em relação ao odor, sensação de sujidade, incontinência durante a atividade sexual, podem levar à evicção de situações de intimidade. A frequência urinária e a necessidade de interromper tarefas afeta a capacidade de trabalho e de viajar”

O envelhecimento é um fator de risco?

A prevalência da BHA aumenta com a idade (20% aos 70 anos e 30% aos 75 anos); contudo, não deve ser encarada como parte do envelhecimento, mas sim merecendo tratamento adequado. As alterações fisiológicas associadas ao envelhecimento, tais como diminuição da capacidade vesical e alterações do tónus muscular, favorecem o desenvolvimento da BHA quando intervêm fatores precipitantes. A depressão, diabetes mellitus insulino-tratada, artrite, terapêutica hormonal de substituição oral, mulheres com índice de massa corporal aumentado, doença pulmonar obstrutiva crónica, obstipação, imobilidade, cirurgia vesical ou vaginal, histerectomia e alguns medicamentos são outros fatores de risco.

Que cuidados são recomendados para minimizar os sintomas?

A modificação comportamental visa alterar a atitude do indivíduo e a sua interação com o ambiente para melhorar o controlo vesical. Evitar certos alimentos e bebidas (álcool, alimentos picantes, nozes, chocolate, alimentos ricos em potássio, bebidas gaseificadas ou com cafeína) pode melhorar os sintomas. O doente deve ser aconselhado a retirar da dieta um destes elementos de cada vez e avaliar se ocorre melhoria sintomática. Um aporte de líquidos adequado é importante, uma vez que estes doentes tendem a restringi-los com vista a urinar menos frequentemente; contudo, a urina concentrada atua como irritante vesical. Adotar um regime de “urinar por relógio” pode ajudar. Quando se sentir confortável naquele intervalo, este deverá ser gradualmente aumentado (de meia em meia hora) até que seja capaz de urinar a cada 3-4 horas. A terapia muscular do pavimento pélvico envolve exercícios concebidos para melhorar a função da musculatura do pavimento pélvico e do esfíncter uretral.

Os indivíduos acometidos desenvolvem múltiplas estratégias adaptativas para esconder o problema (e.g. alterações na ingestão de líquidos, mapeamento das casas de banho, redução da atividade física e social). Estas estratégias em conjunto com os sintomas, afetam a interação com amigos, colegas, famílias e o rendimento profissional”

Quando é que se deve procurar ajuda médica?

Deve procurar-se ajuda médica numa fase inicial das queixas, para obter uma avaliação adequada (história clínica, exame objetivo, análise sumária de urina e avaliação do resíduo pós miccional), identificação de potenciais causas e um plano de tratamento ajustado.

Existe tratamento?

A escolha de um tipo particular de tratamento depende da severidade dos sintomas e da sua interferência no estilo de vida do doente. As intervenções comportamentais, tais como limitar o consumo de irritantes vesicais (e.g. cafeína, álcool), treino vesical, técnicas de supressão da urgência e exercícios do pavimento pélvico, devem fazer parte de toda e qualquer estratégia terapêutica. Mas a base do tratamento é, sobretudo, farmacológica, com duas classes de medicamentos (anticolinérgicos, agonistas beta 3). Destinam-se a ajudar o doente a ter menos vontade de ir à casa de banho, a reduzir a sensação de urgência e a gravidade da incontinência. Em alguns casos, por intolerância ou insucesso da terapêutica oral, faz-se injeção de toxina botulínica A nas paredes da bexiga, com vista ao seu relaxamento. A readministração faz-se a cada 6-12 meses, monitorizada por diários miccionais analisados de três em três meses, para perceber se é preciso uma nova dose desta toxina. Já a neuromodulação periférica ou de raízes sagradas visa, através da administração de corrente elétrica contínua, de baixa intensidade, o controlo da hiperatividade da bexiga.

(Artigo publicado originalmente no Diretório de Saúde 2020 do RL, onde pode encontrar esclarecimentos de especialistas sobre outros temas)

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