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Cultura

O livro que impulsionou os Descobrimentos está de regresso a Leiria

525 anos depois, “Almanach Perpetuum” volta às origens. É uma das 31 obras patentes em “Tipografia Matemática Portuguesa”, no Moinho do Papel, onde está uma “exposição inédita no mundo”

A maioria dos livros reúne, sobretudo, histórias: ficcionais ou reais sobre feitos de alguém ou alguns. Mas o livro também pode ser manual de instruções, instrumento de conhecimento que possibilita proezas inéditas. É nesta categoria que se encontra o “Almanach Perpetuum”, auxiliar precioso para os portugueses no empreendimento dos Descobrimentos, através das suas tábuas astronómicas -solares e lunares- elaboradas entre 1473 e 1476.

Mais de cinco séculos depois, esse manual- atualmente à guarda da biblioteca Pública de Évora- regressou às origens, para a exposição “Tipografia Matemática Portuguesa”, no Moinho do Papel, de onde terá saído a matéria-prima para a impressão.

Publicado em 1496, o histórico “Almanach Perpetuum” é uma obra da autoria do astrónomo e matemático Abraão Zacuto, impressa em Leiria na tipografia de Abraão d’Ortas e constitui o primeiro livro científico de teor matemático publicado em Portugal.

E porque razão é tão importante? Conjugadas com o contributo do cosmógrafo José Vizinho, na explicação do uso das tábuas e de como fazer o cálculo da declinação do Sol, as tabelas constituíram um instrumento fundamental para, “no meio do oceano, conhecer a latitude através da altura do Sol”, explica o comissário da exposição, José Francisco Rodrigues. Acrescentando que a obra esteve, também, “na génese da revolução científica”.

As páginas do livro dificilmente são decifráveis à maioria do público. Mas o certo é que foram essenciais nas viagens de Vasco da Gama (1469-1524) e de Pedro Álvares Cabral (1467-1520), que ajudaram a mudar o mundo.

Viagem por 32 obras e cinco séculos de história

O “Almanach Perpetuum” é o primeiro livro nesta viagem por 32 obras de “Tipografia Matemática Portuguesa”, que retrata cinco séculos de Portugal: de 1496 a 1987. São “obras muito variadas com tipografias e conteúdos diferentes, mas todas com importância matemática”, selecionadas exatamente segundo este critério, frisa o comissário.

Entre a coleção reunida no Moinho, José Francisco Rodrigues destaca, em termos matemáticos, os contributos de Pedro Nunes no século XVI, bem como o “Methodo Lusitanico”, escrito por Luís Serrão Pimentel, no século XVII, que salienta a “importância que a Matemática teve para a independência do país”, através do desenho das fortificações e construções da arquitetura militar, “basilares na Restauração da Independência”, explica o professor.

Entre outros, também reúnem especial interesse, “Princípios Mathematicos”, de José Anastácio Cunha (1790), “Curso de Analyse Infinitisemal”, por Francisco Gomes Teixeira (1887), bem como os livros “História e Memórias da Academia R. das Sciências de Lisboa”, de Daniel da Silva (1851), e a tese de José Sebastião e Silva sobre as “Funções Analíticas e a Análise Funcional” (1950).

O catálogo termina com o volume 44 da revista “Portugaliae Mathematica”, que impõe o fim do ciclo da tipografia clássica dos chumbos, mostrando um “Portugal renovado em 1987, a acompanhar o progresso tecnológico da publicação”. Afinal, o livro já foi composto eletronicamente, lembra.

Estes são apenas alguns dos exemplos do que é revelado na “primeira exposição deste tipo, no mundo”, a visitar até 31 de outubro.

A intenção é levar, depois, a exposição às universidades do Porto, Coimbra e Lisboa, acrescentando obras ao catálogo.

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