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Alcobaça Exclusivo

Alcobaça serviu de abrigo a jovem violoncelista que fugiu de Cabul

Meena Karimi voltou a tocar violoncelo na Academia de Música de Alcobaça e leva para os Estados Unidos da América memórias que guardará para sempre.

A afegã Meena esteve temporariamente em Portugal antes de rumar aos Estados Unidos, onde conseguiu uma bolsa de estudo Foto: Sara Vieira

Foi em Alcobaça que a jovem Meena Karimi, que fugiu de Cabul com a professora, ganhou asas para recomeçar a melodia do seu sonho: ser violoncelista.

A afegã, de 16 anos, começou a estudar violoncelo há meia dúzia de anos no Instituto Nacional de Música do Afeganistão, na Orquestra Zohra do Afeganistão, a primeira orquestra feminina do Afeganistão, onde tem tido palco para mostrar o seu talento musical.

Mas, com a chegada dos talibãs, a orquestra silenciou-se. Apesar disso, Meena, com a ajuda da professora Robin, conseguiu escapar para Portugal, onde permaneceu uma semana até apanhar um avião para os Estados Unidos com o destino final da escola “The Interlochen Arts Academy” para prosseguir os estudos de violoncelo.

“Fui aceite numa escola de artes em Chicago e estou em Portugal para fazer essa transição para os Estados Unidos. No Afeganistão, o aeroporto está fechado por causa da situação que todos conhecemos e, por isso, a minha professora, que é a melhor professora do mundo, ajudou-me a vir para cá e arranjou-me o visto que preciso para estudar nos Estados Unidos”, explica Meena, que já tinha atuado em Portugal há dois anos na Fundação Calouste Gulbenkian.

“Portugal é um país tão bonito, tão pacífico. Adoro poder ver o mar, as ondas, as árvores… Quando acordo de manhã tenho a oportunidade de observar a beleza deste país e das pessoas que aqui vivem, que são as mais queridas com as quais já contactei”, confessou a jovem, durante o curto período que esteve na região Oeste de Portugal.

Alcobaça serviu de “abrigo” a Meena, graças à ajuda de um contacto pessoal da professora americana. Mas, a cidade de Cister foi mais do que uma “casa” para Meena. Depois de ter visto o seu violoncelo destruído e de estar privada de tocar há mais de um mês, voltou a agarrar no instrumento, cujo “som intenso e profundo transmite as emoções que as palavras não conseguem transmitir”, nas instalações da Academia de Música de Alcobaça.

“Pude voltar a tocar violoncelo no dia em que se comemorava o Dia Mundial da Música. Foi tão especial que quando me disseram que ia poder tocar violoncelo o meu coração disparou. Fiquei sem palavras com a oportunidade que me deram”, desabafou a violoncelista, recordando os amigos que, à data, ainda não tinham conseguido sair de Cabul.

Enquanto esteve em Alcobaça visitou o Mosteiro, que a impressionou pela dimensão, e a praia do Salgado, onde fez “a maior caminhada” da vida. “Em menos de uma semana criei memórias que nunca vou esquecer”, admite.

Meena tem o sonho de se licenciar, voltar a Portugal para se tornar violoncelista profissional e depois “regressar ao Afeganistão para criar uma escola de música para ajudar outros alunos”. Além disso, quer “tocar pelo mundo” para tentar inspirar outros jovens” e mostrar que “tudo é possível”.