A coordenadora intermunicipal do Plano Nacional das Artes faz um ponto da situação e balanço retrospetivo, projetando o futuro do Programa Artista Residente na região.
Em que consiste o Programa Artista Residente do Plano Nacional das Artes?
Trata-se de uma medida do Plano de Ação Estratégica integrado no eixo “educação, participação e acesso” do Plano Nacional das Artes. A medida Artista Residente (AR), que colocou mais de 300 artistas residentes em escolas nos últimos cinco anos, prevê o acolhimento de um artista na instituição educativa/cultural disponível para responder às necessidades da comunidade educativa, introduzindo processos e práticas artísticas nestes contextos, que podem assumir diferentes graus de participação. Um artista, um artesão, um coletivo de artistas, um mediador cultural, trabalha em conjunto com as equipas técnicas e docentes, os alunos e outros elementos da comunidade educativa nas suas atividades e prestam apoio na elaboração e na execução do Plano Cultural de Escola (PCE), coordenado pelo Coordenador PNA de Escola.
Em que escolas da região está ativo o Programa Artista Residente?
No distrito de Leiria, beneficiam da presença de um Artista Residente ao longo do ano letivo, o Agrupamento de Escolas de Ansião e o Agrupamento de Escolas de Marrazes, tendo favorecido os alunos dos diversos níveis etários e de escolaridade, mediante projetos culturais e artísticos de natureza diversa. Em ambos os casos, iniciaram em 2021 os seus programas, tendo sido colocados através do PNPSE – Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar. Com formação em Teatro, Ana Pereira e posteriormente Ana Francisco asseguraram as Residências em Ansião. Nos Marrazes, o artista Diogo Monteiro e posteriormente a designer Mariana Neves [Mariana Sou]. Foram dinamizados projetos consistentes e de grande impacto que atestam o sucesso da medida.

Ambicionamos estabelecer um modelo de apoio estável e justo para que todas as escolas possam aderir à medida Programa Artista Residente, criar uma nova área de empregabilidade no setor artístico/cultural que pressupõe articulação com o setor da educação (do ensino básico ao superior) e alargar a medida em contextos de educação não formal
— Isabel Lourenço, coordenadora intermunicipal do Plano Nacional das Artes
Há outros exemplos de atividade de artistas em que escolas da região?
Para além dos agrupamentos mencionados, com a presença de Artistas Residentes durante todo o ano letivo, há exemplos de boas práticas de escolas onde Artistas Residentes asseguram ações, exposições, oficinas/clubes artísticos, enquanto corresponsáveis pela conceção e implementação dos processos.
Embora não se trate de residências artísticas com uma duração mínima de três meses, tal como o PNA recomenda, representam a concretização, mediante residências artísticas, do desejo comum de mobilização das artes, culturas, patrimónios e suas diferentes linguagens nos curricula, estimulando as aprendizagens e o sucesso escolar e motivando e gerando bem-estar na comunidade. Cumprem o propósito de alargamento da medida em contextos de educação não formal, como em bibliotecas, museus, centros culturais, centros cívicos, juntas de freguesia, entre outros.
Nesse sentido, os coordenadores PCE têm diligenciado Residências PNA de menor duração. A este propósito refira-se, como exemplo, sob a coordenação PCE da professora Graça Manaia, o Agrupamento de Porto de Mós, com as diversas sessões das “Aulas-Concerto”, que contaram com o Quinteto de Cordas da Orquestra Sinfónica de Lisboa, numa dinamização/apresentação de Francisco Mendes, no Cine-Teatro de Porto de Mós, no Centro Escolar de Pedreiras, na Escola Básica do Juncal e na Casa da Cultura de Mira de Aire. Refira-se ainda, entre outras, a residência de uma semana da Companhia Dançando com a Diferença, do Núcleo de Viseu, Residência Artística de Dança Inclusiva que decorreu durante uma semana sendo dirigida a alunos de diferentes níveis de ensino e que resultou numa apresentação aberta à comunidade escolar.
Em Leiria, Pombal e Marinha Grande, as câmaras têm abraçado os Projetos Culturais de Escola. Em Leiria, a criação do Espaço Stay Lab – Galeria Manuel Artur Santos, inaugurada no ano passado, é a materialização de um desejo do PNA do território e do espírito diligente do município. Estão já programadas Residências Artísticas PNA, asseguradas pela Câmara de Leiria, naquele espaço destinado à juventude, às artes e à cultura, a primeira das quais no mês de fevereiro e com a duração de uma semana. Dirigida a todas as escolas, esta atividade tem o intuito de preparar a arruada “Em Contramedo”, no âmbito da Bienal Cultura e Educação PNA. Trata-se de experiências artísticas contextualizadas, participativas, inclusivas e pedagogicamente orientadas.
Paralelamente, o Município de Leiria tem atribuído anualmente uma verba a todos os PCE para que as escolas possam autonomamente contratar Artistas Residentes mediante as suas necessidades e objetivos, ou adquirir materiais.
Enfatizo o “Laboratório das Artes” da Escola Profissional de Leiria, onde, ao longo do ano, decorrem residências artísticas de música, artes plásticas e dança, cumulativamente, dinamizadas pelo músico Paulo Sanches, o artista Hirondino Pedro e a bailarina Maria João Maldonado.
Em Pombal, num protocolo entre a Câmara Municipal e o projeto Colmeia, do Leirena Teatro, desenvolvem-se anualmente residências artísticas com os alunos do 1º CEB de todas as escolas do concelho. Por outro lado, a Casa Varela – Centro de Experimentação Artística, presta um apoio fundamental oferecendo às escolas, ao longo do ano, residências com os artistas do espaço cultural. Este ano, decorreram as residências “Eclipse – Reimagined”, residência artística de audiovisual dinamizada pelo Coletivo Fontes, com o músico e compositor Tiago Sampaio e artista multidisciplinar Diogo Mendes e ainda “Fábulas são fábulas” , dinamizada pelos atores da Crónica Pitoresca.
A Câmara Municipal da Batalhamanifestou este ano abertura para ponderar um apoio efetivo às escolas, acolhendo esta medida PAR, o que é promissor.
Na Marinha Grande, as escolas têm uma dinâmica bem oleada, beneficiando de projetos de articulação com a Câmara Municipal da Marinha Grande e o Projeto Casulo – Arte, Inclusão e Envolvimento. Integrado na programação do Teatro Stephens, o programa “Artista no Território” foi concebido como um dispositivo estratégico de mediação cultural e educativa, assente na permanência de artistas convidados em contexto local. Estas residências artísticas promovem uma relação profunda entre criação contemporânea, território e comunidade, permitindo que os artistas sejam influenciados pela identidade sociocultural da Marinha Grande e, simultaneamente, atuem como agentes ativos de aprendizagem, diálogo e transformação educativa junto dos diferentes públicos. A colaboração, tem permitido aos alunos de diferentes níveis e faixas etárias o contacto direto com diversas linguagens artísticas – cinema, fotografia, dança, som, teatro e artes plásticas – promovendo aprendizagens significativas, interdisciplinares e alinhadas com o desenvolvimento de competências-chave do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO), alinhados com os Projetos Culturais das Escolas.
A presença dos artistas nas escolas, entre três e cinco dias, favorece metodologias ativas de aprendizagem, baseadas na experimentação, na observação crítica e na participação direta dos alunos nos processos criativos. Estas experiências contribuem para o desenvolvimento da sensibilidade estética, do pensamento crítico, da criatividade, da literacia artística e digital, bem como de competências sociais como a colaboração, a comunicação e a autonomia. Ao longo dos últimos dois anos, a Marinha Grande recebeu residências e projetos pedagógicos com o artista digital André Sier, Guilherme Simões – Matéria Invisível, Projeto Curupira, a artista visual Carla Cabanas e o projeto Crónica Pitoresca.
Que balanço é possível fazer do impacto deste programa nas escolas da região?
Após estes anos de experiência, contando com o apoio do PNPSE, de municípios e outras organizações, comprovou-se a relevância do papel do artista na comunidade escolar. Fazendo a leitura do mapa das escolas com o Programa Artista Residente (PAR), o mapa de entidades de educação não formal, cultural e social com o PAR, os registos Plano Nacional das Artes (PNA) e recolha de dados junto das escolas PNA, podemos concluir que o PAR se tem afirmado como uma medida estruturante, potenciando a articulação entre escola, cultura e a comunidade, e contribuindo de forma significativa para a formação integral dos alunos.
O que está previsto, na região, no futuro deste programa?
O PNA foi instituído para o horizonte temporal 2019-29, com natureza de estrutura de missão. Temos sinais de que a articulação entre as câmaras, os agentes e espaços culturais, com os propósitos de organizar, promover e implementar, de forma articulada, a oferta cultural para a comunidade educativa e para todos os cidadãos, numa lógica de aprendizagem ao longo da vida, perdurarão para além do PNA, como é o seu propósito.
Ambicionamos estabelecer um modelo de apoio estável e justo para que todas as escolas possam aderir à medida Programa Artista Residente, criar uma nova área de empregabilidade no setor artístico/cultural que pressupõe articulação com o setor da educação (do ensino básico ao superior) e alargar a medida em contextos de educação não formal, como em bibliotecas, museus, centros culturais, centros cívicos, juntas de freguesia, entre outros, consolidar e alargar o mais possível o número de entidades externas parceiras e financiadoras do PAR e aumentar os projetos, programas e outros processos culturais no âmbito do PAR.
A medida PAR promove o acesso de todos os cidadãos aos meios e instrumentos de ação cultural, bem como concorre para a correção das assimetrias existentes no país, indo ao encontro do preconizado pela Constituição. É esse o futuro que almejamos e as práticas e entusiasmo crescente de todos os intervenientes, desde os coordenadores dos Planos Culturais de Escola, os diretores de escolas e agrupamentos, as câmaras municipais, os agentes culturais, os professores e os alunos, refletem-se de forma promissora na comunidade e sociedade que queremos construir.