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Cartas dos Leitores. “Vivências de uma vítima da Kristin…”

Pois, agora, uma dor de alma: tudo varrido, num campo raso, em poucas horas, pelo ciclone da noite de 27 para 28

Tenho uma modesta casa de habitação, de herança, colada ao atual perímetro da Base Aérea Nº 5, ocupando esta espaço maioritariamente da Serra de Porto Urso, em Monte Real (Leiria).

Não residindo de forma permanente lá, fui pois surpreendido pelas notícias do acontecido durante a madrugada de 28 de janeiro na região, já que o IPMA havia alertado para a passagem da tempestade Kristin sim, mas entre os distritos do Porto e Coimbra, deixando a salvo, nomeadamente, o território leiriense. E, por isso, pus-me a caminho, ao fim dessa manhã.

A partir de Torres Vedras começava a ver-se da autoestrada um crescendo do rasto da tempestade, da noite anterior, com algumas árvores já derrubadas; contudo nada de muito significativo. Na zona das Caldas da Rainha já mais visível e entrando então obcessivamente pelos olhos desde Valado dos Frades. Da Nazaré à Marinha Grande, mancha, até aí, quase exclusiva de pinhal, raras eram as árvores em pé, fazendo lembrar dramaticamente arredores de Hiroxima, após o lançamento da bomba atómica, em 1945. Uma desolação!

Aquando da implantação das infraestruturas da atual BA5, de 1948/51, foram expropriadas, a preços administrativos, a bem dizer, de saldo, várias centenas de pequenas parcelas de terreno predominantemente de pinhal, circundando o núcleo militar, já existente. Deles os pobres donos tiravam a caruma e o estrume para cultivo de outras tantas parcelas agrícolas suas, ou recorriam à sua venda numa doença ou mais situações difíceis da família.

Tal acontecia – diziam os responsáveis dessa subtração – por interesse público, para resguardar de olhos indiscretos a futura modernaça BA5 e, de algum modo, criar também uma zona de proteção às suas instalações.

Foram, assim, uns muito largos hectares de pinhal que iam até ao, aliás, intocado “Pinhal de Leiria” e que a Força Aérea, zelosamente manteve – agora propriedade por si administrada – incluindo, nos últimos anos, o aproveitamento da sua resinagem, certamente para o saco azul das despesas imprevistas desta Unidade.

Pois, agora, uma dor de alma: tudo varrido, num campo raso, em poucas horas, pelo ciclone da noite de 27 para 28 e apenas uns quantos polícias da Força Aérea que tímida e lubreguemente vão orientando o trânsito, face aos pinheiros caídos no leito da estrada adjacente.

Poucas centenas de metros à frente, já na povoação, cenário de guerra: casas destelhadas, placas de trânsito dobradas, postes de cimento da média tensão partidos como galhos, fios de electricidade espalhados pelo pavimento da via, misturados com os das demais linhas de suporte telefónico e outras, a esmo, e enovelados frequentemente nas copas de árvores arrancadas e caídas na estrada. Que obrigavam, por sua vez, os automobilistas mirones, aos mesmos cuidados, tateando a passagem, de quem, a pé, evita pisar ovos.

Finalmente, a minha casa térrea, com os pequenos logradouros confinando com a cerca da Base, estava agora com seis estruturas de cimento, de centenas de quilos, em cima do telhado (em boa parte por elas desfeito), voando para aí presas a chapas metálicas desprendidas da cobertura dos pavilhões militares contíguos: parecia bombardeada!

Toda ela ficou igualmente cercada de chapas retorcidas que aí se fixaram, de qualquer maneira, contra as poucas árvores de fruto sobreviventes ou demais obstáculos fixos que haviam resistido. Noutros casos, sobrevoaram mesmo a estrada 349-1 com os tais suportes de cimento agarrados, já em parte esborrachados, e vieram parar onde calhou, com algumas delas soltas e voando, só a imobilizarem-se nos terrenos agrícolas, já a mais de cem metros.

Dois cães fechados no pátio vizinho que, entretanto, se desfez com as rajadas, assistiram sozinhos no escuro, limitados de movimentos, a todo este espetáculo de vento e objetos voadores e estavam, no final, vivos…

Os serviços meteorológicos da Base registaram rajadas de 187 km/hora, nessa noite, quando o Leslie, em 2018, atingiu na Figueira, 176 km/hora.

Como quase sempre acontece, foi porém ocasião de grande entreajuda por parte das suas vítimas locais, apesar de sem eletricidade, água, comunicações, combustível ou comida.

Joaquim Heleno
Monte Real, Leiria (1 de fevereiro de 2026)