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Depois da tempestade, escola da Maceira “renasce” com o apoio da comunidade

A EB/S da Maceira foi uma das mais afetadas pela intempérie no concelho de Leiria. Apesar da gravidade dos danos, direção diz acreditar que a “tragédia” abrirá caminho à requalificação e a “uma escola bem melhor”

Eugénia Gomes lamenta, entre muitas perdas, a da sala de educação especial, um projeto que a escola acarinha há dez anos FOTO: Tomás Graça

Ermelinda Alves foi uma das primeiras pessoas a chegar à Escola Básica e Secundária Henrique Sommer, na Maceira, na manhã do fatídico dia 28 de janeiro.

“Foi assustador”, conta, ela que vive a escassos metros da estabelecimento onde trabalha há 32 anos. Ao REGIÃO DE LEIRIA, retrata “uma imagem horrorosa”, com “tudo destroçado”, e não esconde a emoção depois de ter visto quase todas as árvores de grande porte caídas no chão. “Custou-me”, desabafa, lamentando o desaparecimento dos pinheiros plantados com a construção da escola, há cerca de 40 anos e a sombra que tanta falta fará à comunidade escolar.

Sem grandes danos em casa, além de “duas ou três telhas partidas”, não esperava a razia com que se deparou na escola, desde blocos sem telhas e já cheios de água, portões e portas abertas e vidros partidos, além de equipamentos e mobiliário danificados.

Conhecida pelo seu sorriso aberto e receção calorosa, Ermelinda Alves admitiu dificuldades em descrever o que lhe ia na alma, e disse ter tido outra vez medo, na noite de quinta para sexta-feira, quando voltou a ouvir fortes rajadas de vento.

Entretanto, a retoma das aulas para os alunos do ensino secundário e do 9º ano, na passada semana, deu novo ânimo e alento à escola.

Para tal, valeu o empenho da comunidade escolar e voluntários, empresas locais, autarquias, agentes de proteção civil e segurança, bem como dos militares que se mobilizaram para criar, em poucos dias e apesar de todos os constrangimentos que todos viveram individualmente, as necessárias condições de segurança, adianta, por sua vez, a diretora do agrupamento de escolas.

Face aos danos sofridos em todos os blocos, o município de Leiria procedeu à instalação de 15 monoblocos para garantir um número suficiente de salas para o regresso faseado dos alunos. No final da passada semana, porém, as oito salas do bloco A que ficaram funcionais foram reduzidas a seis, após o registo de novos problemas causados pela chuva contínua.

O início do segundo semestre para os alunos do 5º ano acabou por ser adiado para esta quinta-feira, data também apontada para a retoma das aulas dos 6º, 7º e 8º anos, num total de 375 alunos que se juntarão a outros tantos do 9º ano e do ensino secundário.

Segundo explicou Eugénia Gomes aquando da visita do REGIÃO DE LEIRIA à escola, na sexta-feira, depois da intervenção no bloco A, a empresa Coberfer, da Maceira, que se disponibilizou para proceder à reparação das coberturas e deslocou uma equipa de funcionários que estava a trabalhar no Alentejo, terá concluído a cobertura dos blocos B e D. Já o bloco C, o mais afetado pela intempérie, irá exigir uma intervenção mais profunda.

“Os 15 contentores são ótimos, foi uma excelente resposta imediata, mas precisamos de mais salas, porque, em ocupação plena, chegamos a ter 36 espaços ocupados”, realça a responsável.

“Cenário pode mudar a toda a hora”

“O cenário que temos de manhã é um cenário que pode mudar à hora de almoço e ao fim do dia”, aponta ainda, dando como exemplo o facto de a escola- sede ter acolhido na quinta-feira uma das quatro turmas que estavam a funcionar desde o início da semana no Centro Escolar. “Com o agravamento do tempo, alguns desses espaços começaram a ter água e tivemos que deslocar uma turma para a escola-sede”, explica.

A responsável diz ainda acreditar que, “no meio da tragédia, se veja uma luz de melhoria” que irá permitir “acelerar o processo” da muito aguardada requalificação. “Ansiamos e estamos com a expectativa de que, no final, vamos ter uma escola bem melhor”, partilha.

E porque “é muito importante que os alunos saibam o mais possível sobre o que se passou na escola, a direção, acompanhada de todos os intervenientes, foram às salas explicar o percurso que foi feito desde que chegámos à escola e a devastação que encontrámos”.

Na quarta-feira, 28 de janeiro, Eugénia Gomes demorou duas horas para fazer uma viagem que demora habitualmente 20 minutos e adianta que não foi permitida a entrada de alunos por questões de segurança.

Já na quinta-feira, “aquilo que não tinha sido estragado pelo vento, passou a estar com a chuva”, destaca, lamentando, além de 16 árvores de grande porte, a perda da Unidade de Ensino Estruturado, destinada à educação especial e pela qual sempre nutriu particular carinho.

“Tentámos, nesse dia, também salvar os equipamentos dos laboratórios de informática, de física e de química, porque a água já estava por todo lado”, recorda, salientando a colaboração de vários parceiros para uma ação de limpeza que envolveu, no dia 7, pais, professores, autarquia, militares e bombeiros.

Segundo Eugénia Gomes, todo o processo foi acompanhado pela Câmara de Leiria que promoveu reuniões diárias e presenciais com a vereadora da Educação, respetiva equipa e diretores das escolas e agrupamentos do concelho. “Ali apresentávamos como é que as escolas estavam, o ponto de situação e geriam-se o recursos”.

É da maior justiça salientar o papel fundamental dos militares e dos bombeiros na limpeza da escola, e a que se juntaram assistentes operacionais, professores, pais, alunos, e grupos de voluntários de vários pontos do país

Eugénia Gomes
Diretora do Agrupamento de Escolas Henrique Sommer

De Elvas para o “pandemónio”

Luís Pereira, residente na Maceira, pai de dois ex-alunos, estava a trabalhar em Elvas, quando recebeu uma chamada da esposa, ao meio da noite, alertando-o para o “pandemónio” que ali se vivia.

“Cheguei a casa, tinha 150 telhas levantadas, o barracão onde eu tenho os tratores voou 200 metros no ar, o muro à volta do jardim foi todo à vida, mas pus a telha na casa e o resto é para ir fazendo. Tive que vir acudir a esta escola e a outras casas, temos que ser uns para os outros. Quanto mais ajudamos, mais força temos, e a gente nunca pode deixar ficar mal a professora Eugénia porque está sempre disponível para ajudar e estão aqui muitos alunos”, partilha com o REGIÃO DE LEIRIA, realçando a importância que a escola da Maceira teve no percurso académico e profissional dos filhos e dos sobrinhos.

“É uma casa de família” e “todos querem ajudar”, reforça, enquanto coloca uma rampa de acesso a um dos contentores transformados em salas de aula.

Decisões partilhadas

Todas as decisões têm sido partilhadas com a presidente e vice-presidente da associação de pais, que têm colaborado, a par de outras entidades, com a Junta de Freguesia da Maceira, na avaliação dos edifícios escolares.

Segundo Catarina Fialho, presidente da associação de pais do agrupamento, as dificuldades estavam a ser ultrapassadas, ainda que sem colocar todos os alunos, por não haver condições para o efeito.

“A nossa prioridade foi permitir que os mais pequenos, que estão mais dependentes dos pais, regressassem à escola, e esta equipa que avaliou e interviu logo, recolheu os meios e contactou as empresas que podiam fazer as reparações. Oito dias depois [da tempestade], os meninos do pré-escolar estavam todos na escola, no local ou realojados, bem como quase todo o 1º ciclo”.

Em declarações ao REGIÃO DE LEIRIA, adianta que os jardins de infância e escolas primárias já tinham regressado à normalidade, com exceção do Centro Escolar que obrigou à deslocalização de algumas turmas, mas garantiu que as opções tomadas foram as possíveis, da parte da Junta de Freguesia e também da paróquia, incluindo a possibilidade de acolher duas turmas em salas da catequese.

Na sexta-feira passada, Catarina Fialho admitia que poderia haver “algumas salas a pingar e com baldes” mas “não a chover”, tendo sido feitos reajustamentos, como sucedeu no Centro Escolar. “Não podemos dizer que está tudo perfeito porque não está, é verdade, mas entre ‘um pingar’ e não ter aulas, optámos pela melhor solução”.

Já na escola-sede, “colocámos a hipótese do 2º e 3º ciclo voltarem após as férias do Carnaval, mas é óbvio que têm de estar reunidas as necessárias condições de segurança”. “Sempre esteve na preocupação dos pais e da direção da escola verificar se essas condições estão reunidas. Mas se está a cair um pingo e tem um balde a amparar, não é por isso que não se pode dar uma aula, até porque há uma enorme preocupação com os alunos que irão ter aulas de preparação para os exames nacionais. É óbvio que os do 5º e 6º anos também são uma prioridade, porque são crianças que não podem estar sozinhas em casa e os pais têm que ir trabalhar”, realçou.

Sentimo-nos impotentes ao ver aquilo e a ver a nossa direção sem saber o que fazer, e a sentir o mesmo que nós. Acabámos por nos juntar, o 12º ano, e quando houve melhores condições de segurança, tentámos fazer o possível para ajudar

Mafalda Cunha
Presidente da associação de estudantes

A vice-presidente da associação, Margarida Ruivaco, que é também engenheira civil, reporta que, no dia seguinte à tempestade, foi feita uma vistoria rápida a todos os jardins de infância e escolas do 1º ciclo do agrupamento para verificar os estragos, bem como uma peritagem à escola-sede e ao centro escolar.

Em resultado dessa avaliação, em que participou, “foram determinadas as reparações necessárias para dar condições às escolas de EB1 e JI que precisavam de intervenções ligeiras, e começou-se imediatamente nos trabalhos de remoção de escombros e árvores” nas outras escolas, tendo sido iniciada a reposição provisória de telhas onde foi possível, refere, acrescentando que os JI e EB1 foram intervencionados por voluntários e pequenas empresas de construção civil da freguesia, tendo ficado aptas para começar as atividades no dia 4.

No que toca à escola-sede, no bloco onde foram iniciadas algumas aulas após a reparação da cobertura, Margarida Ruivaco admite que “as salas não estão 100%”, mas garante que “estão absolutamente seguras em termos estruturais e em termos elétricos”.

“As salas não tinham danos estruturais, algumas poderão estar a pingar, até porque os tetos estão encharcados, mas não há qualquer risco para as crianças estarem na escola”, reitera.

“É claro que a decisão de recomeçar as aulas é do município e do agrupamento, mas não foi a qualquer custo. Houve recomendações técnicas, verificações por engenheiros civis e eletrónicos para ter a certeza que não havia riscos de quedas nem de eletricidade que pudessem constituir perigo”, esclarece.

Afirmando ter “uma visão muito pragmática e técnica da situação”, diz compreender, não obstante a tristeza de ver as árvores e os telhados caídos, “as razões físicas do que aconteceu”.

“A generalidade dos edifícios [da escola] é muito robusta em termos de betão e o que cedeu mais foram os vidros, que são vidros simples com 40 anos, e as coberturas de chapa, que é um produto muito leve e e já várias vezes sofreram reparações, tanto que esta escola já estava indiciada para requalificação. Seria até estranho a escola aguentar-se sem danos”, assume, considerando que, embora “triste”, esta é a “oportunidade” para definir uma intervenção profunda para reabilitar a escola.

“Segunda casa completamente destruída”

A imagem com que Mafalda Cunha, presidente da associação de estudantes, ficou do que viu, dois dias após a tempestade, é igualmente desoladora. “É uma enorme tristeza porque vimos a nossa segunda casa completamente destruída”, confessa.

“Sentimo-nos impotentes ao ver aquilo e a ver a nossa direção sem saber o que fazer, por estar a sentir o mesmo que nós”, admite. Refere ainda que os alunos do 12º ano se juntaram para ajudar quando foi possível e apesar das condições não serem as ideais, diz sentir-se segura nas salas onde estão a ter aulas. “Sentimos falta disto e é bom estar com os nossos professores, com os restantes colegas e conseguir dar as matérias que são possíveis”, à exceção das aulas de Educação Física, devido aos danos registados no pavilhão, e de laboratório.

Mafalda Cunha destaca ainda a importância da receção feita pela escola neste regresso, com presença da direção, associação de pais, Junta de Freguesia e bombeiros, que permitiu aos alunos sentirem-se “mais apoiados”.

Escolas à espera de obras

Entretanto ontem, quarta-feira, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, confirmou haver ainda problemas resultantes do mau tempo nas escolas da Maceira e dos Marrazes, no concelho de Leiria, sendo que estas duas aguardam há anos obras de requalificação.

A outra escola mais afetada é a de Vieira de Leiria, concelho da Marinha Grande, indicou o governante, referindo que as três necessitam de obras, que só avançarão quando as condições atmosféricas o permitirem, e que estão a ser implementadas soluções provisórias para que os alunos continuem a ter aulas.

O Agrupamento de Escolas de Vieira de Leiria informou entretanto, esta quinta-feira, que as atividades letivas para os alunos da EB1 António Vitorino deverão recomeçar esta sexta-feira, dia 20. As turmas do 1º ano passam a ter aulas na biblioteca da escola e as do 3º ano na Junta de Freguesia de Vieira de Leiria.

As restantes turmas funcionarão em monoblocos instalados na Escola Secundária José Loureiro Botas, avançou o agrupamento na sua página de Facebook.

Oito jardins e escolas deslocados em Leiria

“Sem escolas a funcionar, é impossível que a comunidade volte à normalidade. As câmaras perceberam isso, o Governo também definiu a prioridade de serem os primeiros equipamentos a serem recuperados e, por isso, esse trabalho está a ser feito e penso que, para o desastre que foi, as coisas estão a correr bem”, apontou, citado pela agência Lusa.

Na segunda-feira, oito escolas e jardins de infâncias do concelho de Leiria estavam a funcionar “em espaços da comunidade devidamente seguros e adaptados”, informou Anabela Graça, vereadora da Educação.

No que toca à EB/S Henrique Sommer, previa a retoma das aulas para os alunos do 5º ao 8º ano esta quinta-feira, assim como dos alunos do 10º ano da Secundária Afonso Lopes Vieira, que tiveram aulas online.

No caso da EB2,3 dos Marrazes, apontou também o regresso dos alunos do 9º ano para esta quinta-feira, mantendo-se os alunos do 7º e 8º anos com aulas à distância.

“As soluções encontradas apresentam-se como uma resposta flexível que privilegia a segurança e o acompanhamento pedagógico dos alunos afetados, visando minimizar o impacto das aprendizagens e na socialização”, adiantou a vereadora ao REGIÃO DE LEIRIA.

Nova monitorização após queda de teto

Na sexta-feira à tarde, dia 13 de fevereiro, algumas placas do teto falso do refeitório da EB da Lameira, freguesia de Ortigosa, “caíram devido à acumulação de água na placa”.

Segundo explicou a vereadora da Educação, as crianças almoçaram naquele dia no refeitório, tendo o problema sido sinalizado posteriormente. “As estruturas não caíram logo, foram fazendo curvatura”, acrescentou, dando nota que a reparação foi efetuada na segunda-feira, após a recuperação do telhado.

Nesse dia, o primeiro de três relativos à pausa letiva do Carnaval, Anabela Graça referiu que “todos os presidentes de junta do concelho estão a monitorizar e a executar obras de recuperação nos jardins de infância e escolas do 1º ciclo”.


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