






Uma mulher espera há três horas, junto ao carro, no Mercado do Falcão (Leiria), transformado em armazém de materiais de construção. O seu marido acabou de encontrar as telhas que irão substituir as que a tempestade levou da sua casa e anexos, em Parceiros. O casal vive em França e veio assim que pôde.
“A tempestade atingiu um bocado da casa, dos anexos e árvores. Nós vivemos em França e tivemos de vir de repente”, conta Maria Odete, sob uma chuva miudinha e persistente, que não ajuda quem anda à procura das telhas certas que a boa vontade do país fez chegar ao “Armazém Solidário”. “O meu marido repôs três ou quatro, mas como eram muito velhas e já não se fabricam, viemos ver se encontramos aqui”, refere a emigrante.
O casal teve sorte e encontrou as telhas para a casa, construída há mais de meio século. “Eu estou em França há 52 anos e a casa era dos meus pais. Assim que nos enviaram fotografias, foi uma aflição e viemos ver como estava tudo”, explica Maria Odete, reformada.
O problema deste casal – encontrar as telhas certas – atinge uma grande parte dos milhares de pessoas que viram as suas habitações e empresas destelhadas pelos ventos ciclónicos da tempestade Kristin. Esta circunstância deve-se a uma das suas melhores propriedades, a durabilidade, como conta o presidente da CS – Coelho da Silva, José Coelho.
“A telha cerâmica é um produto de cobertura com um longo ciclo de vida. Em meados do século passado, havia produção em quase todas as regiões. Só aqui, entre Alcobaça e Batalha, existiam pelo menos dez cerâmicas. Hoje somos nós e mais quatro no país, quando já fomos muitas dezenas”, refere o empresário. Com o desaparecimento das empresas, desapareceu também a maioria dos modelos que produziam e que hoje fazem falta.
A CS – Coelho da Silva, localizada no Juncal, concelho de Porto de Mós, também foi obrigada a suspender a atividade por força das consequências da tempestade, mas os seus 250 trabalhadores não pararam. “Na manhã seguinte estavam na empresa e logo a receber os particulares que, desde o primeiro momento, afluíram em grande quantidade”, conta José Coelho.
Ao fim de dez dias, tinham atendido duas mil pessoas e despachado “600 viaturas pesadas para os armazenistas”. Para além da área comercial, a cerâmica destinou mais de 50 pessoas a este inesperado atendimento. “A primeira iniciativa de todos foi assistir quem nos procurava. Era um fluxo monstruoso”, adianta o presidente da empresa, que “por regra não vende a particulares”, apostando antes numa rede de revendedores distribuída pelo país.
A dedicação aos clientes particulares – reconhece – “também só foi possível porque a produção esteve parada sete dias, por falta de energia, e havia material em stock”. No dia de maior atividade, saiu das instalações meio milhão de telhas – a produção anual é de 45 milhões.
Em termos de produção, a CS – Coelho da Silva “não produziu mais” devido ao aumento da procura, “fabricou menos, porque faltou a energia”, e “continuará a produzir a mesma coisa”. “Agora, o que pode acontecer é que, como ‘comemos stock’, nos faça, eventualmente, falta no verão. Mas logo que a energia foi restabelecida retomámos a produção em velocidade de cruzeiro”, explica José Coelho.
A empresa fabrica 12 tipos de telhas e centenas de acessórios. No total, são mais de mil referências. Os preços variam de 0,90 a 1,55 euros, podendo chegar aos 2,10 euros, dependendo das suas características, como, por exemplo, a cor. Esta diversidade mostra como esta cobertura é mais complexa do que pode parecer à primeira vista.
“É como usar o chapéu de chuva. Se não faz vento, seja de melhor ou de pior qualidade, mesmo que seja um chapéuzeco, cumpre a função. A partir do momento em que o vento sopra, para além de deixar de proteger, temos de andar com o chapéu a livrar-nos do vento. Ou seja, surgem fenómenos de sucção em que a qualidade do chapéu está em causa e deixa de cumprir a função. Com as telhas é a mesma coisa”, refere o presidente da CS – Coelho da Silva, que fatura 35 milhões de euros.
Mas, como é natural, não basta que sejam de qualidade (e esteticamente bonitas), é preciso que sejam aplicadas de acordo com as suas especificações. “A telha é um produto técnico, não é um chapeleco que se põe lá em cima para proteger da chuva e ponto final. Exige um sistema e profissionais de aplicação técnica, que é preciso ter em conta; bem como deixarmos de ouvir que as colocadas nos prédios são para os aviões verem”, diz o presidente da empresa.
A telha tornou-se quase um ícone da tempestade Kristin, pelas piores razões – pode ser que agora fique também mais conhecida pela sua “enorme variedade de acabamentos superficiais e de tecnologias de produção”. E resistência: “Não é por acaso que ainda há telhas romanas em edifícios”, conclui.
Armazém Solidário recebe e oferece materiais
O Mercado de Venda por Grosso do Falcão, junto ao Aeródromo Municipal de Leiria, está a funcionar como Armazém Solidário, para entrega e recolha de materiais de construção. Segundo a câmara municipal, o Armazém Solidário funciona, entre as 9h00 e as 17h00, “para apoiar quem mais precisa”.
As maiores necessidades neste momento são telhasol 10, telhasol 12, telhões para telhasol, telha Marselha antiga, telha Margon Juncal (esquerda e direita), telha Umbelino Monteiro, telha CS modelo F2 e telhões para telha CS. “Se tem materiais disponíveis ou conhece quem possa ajudar, a sua contribuição faz a diferença”, apela a autarquia. Além de telhas, há outros materiais destinados à construção civil.
A procura tem sido significativa e, por exemplo, na segunda-feira, dia 9, havia, ao final da manhã, uma fila de dezenas de carros e pessoas que aguardavam a sua vez para ver se encontravam o que precisavam.
Fábrica de plásticos perde 85% da cobertura e muda de sítio
A Plásticos Santo António (PSAplast) foi uma das empresas devastadas pela tempestade Kristin. Os edifícios mais antigos, da década de 1940, cobertos com telha cerâmica, “sofreram menos” do que os construídos nas décadas de 1970 e 1980, em que foi usada chapa metálica. Ainda assim, o vendaval danificou 85% da cobertura da empresa.

“No meio do azar, tivemos uma sorte muito grande, porque há seis meses começámos a construir uma fábrica em Monte Redondo, junto à zona industrial, o que nos permite mudar assim que estiver pronta. Por outro lado, como ainda está nos pilares e suportes da estrutura para o telhado, não sofreu danos”, conta o gerente, Miguel Rito.
O objetivo agora é recuperar 20% da área coberta, colocar o stock num armazém logístico, de onde sairão as encomendas, e recuperar “80% da capacidade de produção em faturação”. A empresa tem 20 colaboradores e produção contínua. Os que estavam a trabalhar na madrugada da tempestade refugiaram-se nos vestiários, construídos em betão, e ficaram “completamente seguros”.
Na segunda-feira, dia 9, a PSAplast, que produz embalagens, caixas e outros artigos, ainda não tinha energia elétrica e os computadores funcionavam suportados por um gerador, mas conseguia despachar encomendas. “Isto foi absolutamente incrível. A cobertura de um pavilhão levantou voo e foi parar a uns 50 metros, em cima de outro pavilhão, e destruiu-o. A cobertura e duas das quatro paredes caíram e desapareceram”, conclui o gerente da empresa de Arrabalde da Ponte, em Leiria.