Procurar
Assinar

Subscreva!

Newsletters RL

Saber mais

Entre escombros e incerteza: tempestade arrasou praias e negócios na freguesia de Pataias

Parque de campismo, restaurantes e cafés, além das moradias, sofreram elevados danos com a passagem da depressão. Reconstruir é o caminho.

Três semanas depois da passagem violenta da tempestade que assolou toda a região de Leiria, no litoral norte do concelho de Alcobaça, a estrada atlântica continua a parecer um cenário de guerra. A Kristin passou por ali e “ficou” marcada com violência nas estruturas partidas, nos estabelecimentos fechados, na sinalética caída, nos avisos improvisados de perigo e nas conversas de quem tenta perceber quando começa verdadeiramente a recuperação.

Na primeira linha de mar, onde o vento encontrou menos obstáculos e ganhou velocidade, multiplicam-se as histórias de prejuízo, espera e incerteza.

No restaurante Mad, em Vale Furado, no meio da destruição visível há um detalhe que chama a atenção de quem por ali passa: uma placa na esplanada devastada onde ainda se lê “aguarde aqui para ser sentado”. É um vestígio silencioso do funcionamento normal que ali existia antes da tempestade.

O proprietário, Slavo Husar, enumera os danos: “Telhado danificado, uma parte dele arrancada e destruída por completo, uma chaminé com motor de exaustor arrancado. Esplanada praticamente toda destruída, estrutura muito danificada. Felizmente não entrou dentro de edifício”.

Os orçamentos de recuperação rondam os 9 mil euros, um valor pesado para quem depende exclusivamente daquele negócio. Fora da época alta, o restaurante emprega duas pessoas. Agora, tudo está parado à espera da seguradora. Slavo Husar não tem dúvidas que esta foi a tempestade que mais causou danos e critica a falta de apoio: “Desta vez até alguem muito inteligente mandou vedar o acesso do parque de estacionamento, onde se encontram os caixotes de lixo (únicos) e a reciclagem, nem dá para entrar, nem para ser esvaziados”, lamenta o empresário.

Mais a norte, já mesmo a chegar à fronteira do concelho da Marinha Grande, o cenário é ainda mais dramático. Em Água de Madeiros, o Terceira Parte Beach Bar praticamente desapareceu.

O proprietário, Leocádio Ascenso, comprara o café no verão passado, depois de mais de década e meia de funcionamento. Descreve-o como “um bar típico de praia, calminho, clientes habituais, espaço acolhedor, onde se podia beber uma imperial e apreciar o mar e apanhar sol”.

O que encontrou após a tempestade da madrugada de 28 de janeiro foi um choque: “Quando lá cheguei foi um choque ver o café completamente destruído, veio tudo abaixo, partiu as vitrinas e o vento encarregou-se do resto… foi perda total, não conseguimos salvar nada.” Restou o chão, “partido em vários locais”.

O prejuízo total, entre estrutura, recheio, cozinha equipada e stock, situa-se entre 80 e 100 mil euros. Sem seguro, a reconstrução torna-se um desafio ainda maior: “Desde 2018 que não contemplam estes bares. Vai ser por isso mais difícil”. Apesar disso, mantém a intenção de reerguer o negócio: “Planeio voltar a reconstruir. Aproveitar para dar um cariz mais próprio e nosso ao bar.”

A tempestade atingiu também a sua habitação: “Rebentou com o telhado… a casa está inabitável no momento, como não tem telhas está a chover em cima da placa”. Os danos domésticos rondam os 25 mil euros, enquanto a humidade começa a infiltrar-se nas paredes e estruturas.

Entre as vozes afetadas pela tempestade está também a de Jullia Lima, residente há dois anos na Pedra do Ouro. “Foi um susto. Por volta das 3h30 da madrugada, os barulhos eram assustadores. Eu estava a dormir no andar de cima e, por segurança, fui para o quarto com a minha mãe e o meu irmão”, recorda.

A jovem descreve os estragos: “algumas rachaduras, a chaminé da casa partida, e no prédio onde moro partiu o vidro do hall de entrada e o vento também arrancou o portão da garagem”. A tempestade também deixou a comunidade sem serviços essenciais: cerca de uma semana sem luz, quatro dias sem água e aproximadamente uma semana sem comunicações, dependendo da operadora.

“Ficar sem luz foi o maior desafio, pois todos os eletrodomésticos da casa dependem de energia. Tivemos de improvisar com a lareira. Ficar sem água também foi difícil, pois usamos para higienizar alimentos e nos banhos”, explica a jovem, que tinha notícias através da rádio ou em casa de uma familiar que mora na Marinha Grande.

Apesar das dificuldades, a comunidade da Pedra do Ouro uniu-se para limpar os estragos. “Os moradores ajudaram a recolher telhas, fios caídos e postes”, acrescenta Jullia Lima. Hoje, a recuperação avança aos poucos: “Já temos água, luz e rede voltando gradualmente. Ainda estamos a consertar telhas, postes e outros estragos”, conclui.

O presidente da União das Freguesias de Pataias e Martingança descreve um cenário de devastação generalizada: “Os principais estragos registaram-se ao nível dos acessos, com arrastamento significativo de areias, destruição parcial de caminhos e danos profundos em passadiços e estruturas de apoio”.

Verificou-se também “instabilidade em algumas arribas e prejuízos consideráveis nos espaços comerciais situados na primeira linha. A força conjugada do mar e do vento provocou um cenário de grande destruição ao longo de toda a nossa frente costeira”, acrescenta Dário Moleiro. Segundo o autarca, há zonas onde a instabilidade das arribas se agravou e que exigem avaliações técnicas detalhadas. Alguns acessos foram interditos logo após o temporal, decisão tomada “por questões de segurança”, sublinhando que a prioridade foi sempre salvaguardar pessoas e bens.

A dimensão territorial dos danos é igualmente expressiva. Praticamente toda a frente costeira da freguesia foi afetada. Praias como Praia da Pedra do Ouro, Praia de Paredes da Vitória, Praia de Água de Madeiros, Praia do Vale Furado e Praia da Légua sofreram danos significativos. Também o empreendimento na Praia da Falca sofreu graves danos. “Em algumas verificou-se maior impacto nas estruturas construídas; noutras, o maior problema foi a erosão e o arrastamento de areia”, salienta o presidente da Junta, que apesar de estar no executivo desde 2001 assume, desde outubro, a presidência do órgão.

Entre os equipamentos públicos afetados, destaca-se o parque de campismo de Paredes da Vitória, gerido pela Junta e habitualmente um dos polos de atração turística da zona. O parque de campismo foi uma das infraestruturas mais afetadas, tendo ficado praticamente devastado, com danos extensos em estruturas, equipamentos e áreas arborizadas. Neste momento decorre a avaliação técnica e a definição de um plano de recuperação.

“A reabertura dependerá da execução dessas intervenções e das condições de segurança, mas tudo faremos para que possa voltar a funcionar assim que estejam reunidas as condições necessárias”, diz Dário Moleiro, que dedicou os primeiros dias no terreno à resposta imediata.

“Numa primeira fase, concentrámo-nos na desobstrução de acessos e na reposição de condições mínimas de segurança. Foram mobilizados meios para remover destroços, limpar vias e sinalizar zonas de risco. Paralelamente, está a ser feito o levantamento técnico detalhado dos danos para definir prioridades de intervenção”, explica o autarca.

A dimensão dos prejuízos obriga a articulação entre várias entidades: “Estamos em permanente articulação com o Município de Alcobaça e com as entidades competentes, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente. Dada a dimensão dos prejuízos, é fundamental uma resposta articulada entre Junta, Câmara e Administração Central, quer ao nível técnico quer ao nível financeiro”, frisa.

Na freguesia do concelho com mais praias, o levantamento global dos danos ainda não está concluído, mas o retrato provisório é expressivo: “Os prejuízos são muito elevados. Para além dos danos nas praias, habitações, empresas e explorações agrícolas, as próprias unidades orgânicas da Junta sofreram impactos muito significativos.”

Entre os exemplos apontados em termos de infraestruturas estão as piscinas a céu aberto ainda encerradas, a Escola EB 2,3 sem cobertura (obrigando cerca de 270 alunos a deslocarem-se diariamente para Alcobaça), infiltrações na sede da Junta, na unidade de saúde e no posto da GNR, danos estruturais no pavilhão desportivo de Pataias e parte do mercado semanal danificada.

A lista podia continuar.

Quanto ao futuro próximo, a incerteza mantém-se. Intervenções como reposição de areia ou consolidação de arribas dependem de estudos técnicos e enquadramento ambiental. Ainda assim, a meta está definida: “O nosso objetivo é garantir que todas as praias estejam em condições de segurança antes do início da época balnear”, garante Dário Moleiro.

No entanto, tudo dependerá da celeridade das intervenções necessárias. “A segurança será sempre o critério principal e não será descurada”, afiança.


Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *