Foram 11 dias sem luz em casa. Tatiana Ferreira, da Almagreira, esteve quase duas semanas a viver à luz das velas, sem forma de comunicar com entes queridos. “Foi uma altura muito complicada. Tínhamos de acordar [à noite] de duas em duas horas para tirar água do exterior da casa com recurso a uma bomba alimentada a gasolina”. Se não tirassem a água, a mesma entrava pela casa e inundava as divisões, explica.
Como não havia energia em casa, também não conseguiam ter alimentos no frigorífico. “Explicar a uma criança de 3 anos que não há comida no frigorífico é muito difícil”, diz Tatiana, lembrando os dias difíceis que passou, o frio, a ausência de comunicações.
E, por outro lado, o viver entre duas realidades paralelas: o trabalho, num lar de idosos na Almagreira, onde sempre houve luz e tinham “todas as condições” e ao final do dia, quando chegava a casa e tinha de acender uma vela para conseguir iluminar as divisões. “Era um outro mundo”.
“Quando veio a luz em minha casa, foi um alívio muito grande. Parece que me saíram 100 quilos de cima”, diz, realçando que, no entanto, continua sem acesso à internet e não consegue ver televisão. “Não tenho noção de como estão as coisas nas restantes localidades, porque não consigo ver as notícias”.
Por sofrer na pele os efeitos devastadores da tempestade Kristin e movida por um sentimento de “impotência e frustração”, Tatiana decidiu organizar uma manifestação, juntando habitantes que estavam – e alguns ainda continuam – a viver nas mesmas condições, mas também autarcas.
A manifestação aconteceu no passado dia 6, em frente à sede da Câmara de Pombal. Quase meia centena de pessoas juntou-se para mostrar ao país as condições que se vivem em muitas freguesias de Pombal, onde os geradores não são suficientes. Onde as pessoas não conseguem comunicar, passam frio porque as casas continuam destelhadas e chove no interior das mesmas. Há quem não coma uma refeição quente há muitos dias.
No protesto, os moradores acusaram a E-Redes de “adiar uma solução temporária”, com recurso a geradores, até estarem concluídas as reparações.
Todos os presidentes das juntas da freguesia estiveram presentes no protesto e prestaram algumas declarações aos jornalistas. João Pimpão realçou, bastante exaltado, que “só ao quinto dia” é que a E-Redes foi “alugar geradores a Espanha”. “Isto não é trabalhar com animais. é trabalhar com seres humanos”, lembrou.
No entender de Tatiana Ferreira, a mensagem dos autarcas acabou por “não chegar” a todas as televisões, tal como desejava. E, por isso mesmo, continua a sentir a mesma impotência e frustração que a levaram a organizar a manifestação. Predomina também uma grande incógnita sobre como serão as próximas semanas e quando poderá regressar a normalidade a toda a região de Leiria.