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Mariana suspendeu o trabalho para coordenar centenas de voluntários em Ourém

Nas últimas semanas, Mariana Sousa dedicou-se a 100% a fazer a ponte entre a proteção civil local e as centenas de voluntários que chegaram a Ourém para ajudar.

Marta Durán e Mariana Sousa (ao centro) com uma outra voluntária e o ator Miguel Costa, que também passou por Ourém

Água e luz em casa nunca faltaram a Mariana Sousa. Mas não conseguiu ficar indiferente às situações vividas em muitas habitações por todo o concelho de Ourém, sobretudo na zona norte, afetadas pela depressão Kristin.

Mariana Sousa, residente no centro de Ourém, conta ao REGIÃO DE LEIRIA, que depois do dia de “embate” da tempestade, ainda tentou regressar ao trabalho, que realiza remotamente para uma startup em Lisboa, mas ficou sem rede e não conseguiu retomar a rotina do dia a dia. Decidiu então continuar a ajudar familiares de amigos a reparar os telhados das suas habitações.

Numa das voltas, pela freguesia de Caxarias, encontrou um cenário muito pior daquele que imaginava. Não conseguiu ficar indiferente e enquanto dirigente de um agrupamento de escuteiros respondeu de imediato ao pedido da proteção civil local para participar numa reunião. “Os escuteiros são uma espécie de corpo de proteção civil secundário. Somos ativados neste tipo de situações”, esclarece.

No dia 31 de janeiro, os escuteiros começaram a trabalhar no estaleiro municipal de Ourém, gerindo o material de construção que lá chegava. Foi aí que Mariana percebeu que “ninguém tinha noção do que se estava a passar em Ourém”. “Percebi que não estávamos a aparecer nas notícias, não tínhamos ajudas e os esforços estavam a ser canalizados todos para Leiria e Marinha Grande. E isso estava a assustar-nos porque as pessoas chegavam ao pé de nós a chorar muito, a contar histórias de horror, a mostrar fotos das suas casas destruídas”.

Mas Mariana sabia que não seria possível ajudar sem ter uma estrutura organizada, uma forma de centralizar pedidos e organizar as equipas de voluntários. É que depressa começaram a chegar voluntários de vários pontos do país, sobretudo depois de Mariana e outros habitantes de Ourém entrarem em contacto com influencers a pedir ajuda.

Com o apoio da Câmara, aquele agrupamento de escuteiros criou uma estrutura de apoio no Centro Comunitário de Voluntariado de Ourém, junto ao Paços do Concelho. Aí começaram a fazer o registo oficial dos voluntários e Mariana passou a ser responsável por fazer a ponte entre a proteção civil e os voluntários.

Cordas ajudam a garantir segurança

Passadas duas semanas, Mariana conta que já passaram por ali mais de 600 voluntários e durante os últimos dias “toda a gente aprendeu a mexer em telhas”.

“A proteção civil faz o melhor que pode com as equipas que lhe chegam, mas os próprios materiais que trazem às vezes têm limitações”. Nos últimos dias, salienta, as equipas de voluntários que chegaram com cordas de rapel, material de escalada e espeleologia, têm sido fundamentais para a reparação de telhados. “Eles são impressionantes, são incansáveis. Conseguem passar entre quatro e cinco horas a reparar um telhado. E se for preciso reconstroem tudo”.

No início desta semana, Mariana chegou a pensar que poderia regressar à normalidade, mas rapidamente percebeu que não é possível. “Pensámos que as coisas iam ficar mais calmas, mas o dia de ontem [segunda-feira, 9 de fevereiro] mostrou-nos que os voluntários ainda são precisos”.

Embora cansada, Mariana diz que se sente bastante feliz por estar a ajudar as pessoas da sua terra. “Felizmente mudei-me de volta para Ourém há pouco tempo. E foi um grande sentimento de concretização poder voltar a viver em casa e de repente ser útil e conseguir ter a capacidade de ajudar”.

Reconhece também que o papel da família tem sido fundamental para conseguir estar a 100% na organização dos voluntários, assegurando a gestão do estaleiro e também gerindo a entrega de bens alimentares nas freguesias. “A minha família tem sido incansável, a tomar conta de mim e do meu marido, que também tem estado a trabalhar. Trazem-nos refeições quentes à noite, dão-nos um jeito na casa quando não podemos”.

O poder positivo das redes sociais

Marta Durán, conhecida nas redes sociais pelo projeto “boleiasdamarta”, uma página de Instagram dedicada a viagens, foi uma das influencers com quem Mariana entrou em contacto e que respondeu positivamente ao pedido de ajuda.

A viver em Lisboa e sem grandes ligações a Ourém, Marta conta que carregou uma carrinha com materiais de construção e foi para Ourém, com a irmã, depois de ter recebido as mensagens a pedir ajuda.

Inicialmente, assim que viu as primeiras notícias na televisão a dar conta do rasto de destruição deixado pela depressão Kristin, Marta dirigiu-se à Marinha Grande e a Vieira de Leiria para entregar alguns bens alimentares aos bombeiros locais. Depois decidiu canalizar a ajuda para Ourém, onde nos primeiros dias andou de porta em porta a perguntar às pessoas do que é que precisavam.

Conta que entregou rádios e lanternas a quem não tinha luz e, munida de internet da Starlink, facultou o seu telemóvel a quem quisesse entrar em contacto com familiares.

“Havia pessoas que se agarravam a nós a chorar. Algumas diziam que preferiam ter morrido, outras diziam que podiam estar piores”, recorda, frisando que o cenário que encontrou refletia uma “cidade esquecida”.

É um trabalho em equipa gigante e o poder positivo das redes sociais, além de ter unido imensos voluntários, permitiu que fossem feitas muitas doações e se salvassem famílias que estavam a viver literalmente debaixo de água

Marta Durán, voluntária e influencer

Marta afirma que foram dias “muitos intensos”. Através das redes sociais conseguiu mobilizar milhares de voluntários e acabou por ficar integrada numa equipa que percorreu muitos locais do concelho para reparar telhados.

Em conversa com o REGIÃO DE LEIRIA, recorda uma habitação de dois andares, onde um casal estava a dormir no andar de baixo, mas teve de ser realojado, porque aquele andar acabou por ficar também inundado. “O piso de cima era uma autêntica piscina”.

Marta ia repor as telhas daquela casa, mas percebeu que já não se fabricavam telhas iguais. Foi através das redes sociais que recebeu o contacto de um outro casal que disse que conseguia arranjar telhas e levá-las a Ourém. “Na manhã seguinte já estávamos a repor as telhas”, conta.

“É um trabalho em equipa gigante e o poder positivo das redes sociais, além de ter unido imensos voluntários, permitiu que fossem feitas muitas doações e se salvassem famílias que estavam a viver literalmente debaixo de água”.

Em Ourém, Marta e a irmã foram acolhidas por Mariana Sousa, de quem iam recebendo alguma orientação sobre os locais onde as pessoas estavam a precisar de ajuda na reparação de telhados. Espite, Rio de Couros, Cumieira, Freixianda, Caxarias, Casal dos Bernardos, Urqueira e Gondemaria foram alguns dos locais por onde Marta passou.

“As imagens não mostram realmente o que se passa”

Pessoas a viver à luz das velas, com divisões inundadas, casas destruídas pela força do vento…Rúben Reis, que regressou no dia 1 de fevereiro para ajudar os familiares, diz que aquilo que tem visto “é mesmo surpreendente”. “A força da natureza é surpreendente”, realça, acrescentando que as imagens que viu na televisão “não mostram realmente o que se passa”.

O jovem natural de Vilões, na freguesia de Nossa Senhora da Piedade, emigrou há dois anos para o Canadá, onde trabalha na construção de “telhados planos”. Assim que soube o que se estava a passar na terra natal, veio para Ourém com um primo e um amigo. Pelo caminho compraram combustível para alimentar geradores, porque já sabiam que havia muita dificuldade em comprar combustível na zona.

Depois de ajudar os familiares, que felizmente não sofreram muitos danos, Rúben juntou-se aos voluntários para ajudar a reparar o telhado de outros moradores do concelho. É o que tem estado a fazer estas últimas semanas. O objetivo, diz, é “ajudar o máximo de pessoas” antes de ter de regressar ao Canadá.

Apesar do grande espírito de solidariedade e entreajuda, tanto Mariana como Rúben e Marta, que por estes dias também já regressou às suas bases, defendem que falta uma intervenção musculada do Governo.

“Isto não pode andar à conta dos voluntários. As pessoas precisam de apoio financeiro, mas também de mão de obra qualificada”, conclui Marta.

Uma das equipas de voluntários, onde está incluída Marta Durán (em baixo) e Rúben Reis (em baixo à direita)


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