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Nem a falta de teto, telhado ou luz pára o apoio aos idosos

Apesar dos danos sofridos nas suas casas, as funcionárias do Centro Social e Paroquial de Regueira de Pontes arregaçaram as mangas e desdobraram-se para prestar todos os cuidados aos utentes

A exemplo das outras instituições de apoio a idosos afetadas pela intempérie, a equipa do Centro Social e Paroquial de Regueira de Pontes uniu-se para enfrentar a tempestade. Apesar de todas dificuldades vividas em termos pessoais, tem assegurado todas as respostas aos cerca de 150 utentes do lar, serviço domiciliário e centro de dia, assim como à creche FOTO: Tomás Graça

A casa de Susana Silva, residente em Regueira de Pontes, não escapou à fúria da depressão Kristin, nem a de Olívia Coelho, que vive um pouco mais acima, no lugar de Matoeira. Pior ficou a casa onde vivia Gabriela Sequeira, que perdeu naquela noite o teto, que não lhe desabou em cima por sorte divina, acredita.

Todas acordaram na madrugada do dia 28 com a força do vento, a queda de cabos, telhas a voar e vidros a estilhaçar. Sem luz, nem comunicações, confirmaram que os seus familiares estavam bem e puseram-se logo a caminho do Centro Social e Paroquial de Regueira de Pontes (CSPRP), onde trabalham, para cuidar dos idosos.

Volvidos pouco mais de 15 dias após o temporal, as emoções mantêm-se à flor da pele e embargam-lhes a voz quando recordam o medo que sentiram, o caos que encontraram quando saíram à rua e a forma como têm tentado lidar com as suas responsabilidades profissionais e problemas pessoais.

“Foi muito, muito, muito exaustivo e agora é pior, agora é que uma pessoa começa a cair em si”, admite Susana Silva, responsável pela cozinha da instituição.

Daquela noite, recorda o “estouro” da queda dos fios de alta tensão da REN em cima do telhado da sua casa e habitações vizinhas e de ter procurado refúgio na cave depois de tentar, com o marido, travar a entrada do vento. “Quanto acalmou, a minha grande preocupação foi ir ver se os meus irmãos e os meus pais estavam bem, e depois os idosos”. Pouco passavam das 7h30 quando chegou ao lar e se deparou também com um rasto de destruição.

Sem luz, nem elevador, procurou avaliar, com as funcionárias que conseguiram ali chegar, como intervir para dar apoio aos 63 utentes institucionalizados, alguns dos quais acamados. “Resolvemos servir pão, porque o padeiro veio naquele dia, e iogurtes, e as cozinheiras foram ajudar a dar os pequenos almoços nos quartos”, explicando aos idosos o que se passou mas sem retratar a gravidade da situação para não os alarmar.

Com o gerador a alimentar apenas o elevador de serviço e as arcas, foi servido grão com atum ao almoço e feijão frade com atum ao jantar. “Em tempo de guerra tem de ser”, frisa, dando conta que a equipa do apoio domiciliário foi a terreno ver como estavam e do que precisavam os idosos.

“Na quinta-feira, conseguimos improvisar uns fogões e fazer uma sopa como antigamente, tudo picadinho com uma faca, num panelão muito grande, e um segundo prato. Tivemos que montar uma cozinha dentro da cozinha e estivemos assim uma semana”, até chegar um gerador maior.

Funcionária do lar há seis anos, desde que abriu, admite que a experiência da pandemia as ajudou a reagir. “Nós não esperámos por ninguém, começámos logo a resolver a situação”, adianta.

A experiência do Covid ensinou-nos muito. Foi uma bagagem muito importante e nós já estamos habituadas a trabalhar em contexto de crise (…) Fomos a casa de toda a gente e, com as nossas funcionárias tentámos segurar as pontas todas

Sofia Pereira
Diretora geral do CSPRP

Também ela cozinheira, Olívia Coelho considera que esta tempestade foi pior do que a pandemia da Covid-19. Jamais esquecerá a hora e meia que passou a segurar, com o filho, a porta de entrada que o vento arrancou. “Pensámos que a casa estava a destruir-se. Foi o telhado, a chaminé, a porta, as janelas. O muro partiu e a vedação caiu, os telhões e a parede racharam e a água não pára [de entrar], parece um rio a escorrer e continua porque eu não posso fazer nada” enquanto chover, conta. Reconhecendo que tem sido complicado gerir tudo, até porque esteve quase 15 dias sem luz, destaca, no entanto, a ajuda disponibilizada pela instituição.

Gabriela Sequeira, auxiliar de ação direta, confirma, ela que, com o marido e as três filhas, de 6 e 11 anos, escapou à queda do teto da casa, depois de terem sido alertados pelos vizinhos para o risco que corriam. Foi acolhida por uma vizinha mas não deixou de ir trabalhar.

“Foi muito difícil e ainda é muito doloroso falar sobre isso, mas nós tínhamos que nos reerguer. Ficar lá sem ajudar ou olhar para o que já estava no chão não fazia sentido para mim, e a gente está fazendo o que pode”. “Foi muito deus”, insiste, lembrando o quanto as filhas ficaram assustadas e os medos que ainda enfrentam, mas também o sentimento de impotência e a insegurança que diz sentir e partilha com as colegas. “E a instituição não soltou a mão de ninguém, nem dos utentes, nem dos funcionários até hoje, com alimentação, lavagem de roupa, banhos”, reforça.

FOTO: Tomás Graça
Cuidadora do marido, Amália Rino tem contado com o apoio da equipa do CSPRP. Na sexta-feira da semana passada, recebeu a visita de Patrícia Gomes, diretora técnica do SAD e do centro de dia, pouco antes da chegada de Diane Suzuki e de Jene Ayllon, funcionárias da instituição

Ajuda de porta em porta

Diretora técnica do Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) e do centro de dia, Patrícia Gomes, residente em Souto da Carpalhosa, demorou a chegar ao lar na madrugada do dia 28 de janeiro, devido ao corte de duas estradas. Assim que conseguiu, foi de porta em porta visitar os utentes, já depois das funcionárias terem feito a volta toda.

“Nunca pararam”, enaltece, ainda que, por falta de luz, os cuidados tenham sido prestados mais cedo, antes do cair da noite”. “Nunca houve quebra de apoio domiciliário. Em dia nenhum. As funcionárias têm sido incansáveis a esse nível. Nós estamos cá de retaguarda e para ir ver os utentes, mas elas nunca deixaram de fazer a higiene e prestar outros cuidados utentes”, acrescenta, antes de bater à porta de José Gil, beneficiário do SAD, na sexta-feira da passada semana.

Foi a esposa e cuidadora, Amália Rino, que fez as honras da casa, e contou ao REGIÃO DE LEIRIA como viveu a noite da tempestade e os dias que se seguiram.

“Foi horrível. Tive muito, muito medo. Estava sozinha com o meu marido”, relata. Diz ter conseguido falar com o filho e a nora, que vivem perto mas estavam a trabalhar de noite, antes de falharem as comunicações, e com os netos que a alertaram para não sair e afastar-se das janelas. “E pronto, fiquei aqui a gritar por Nossa Senhora”, recorda.

Mal amanheceu, deparou-se com um cenário desolador. “Tenho muitos danos na parte de trás do telhado, a chaminé caiu e partiu as telhas todas, nos anexos voou tudo, está tudo destruído. Tenho o sótão todo imundado, os quartos têm já infiltrações e até a cave tinha água”, adianta, lamentando ainda a queda de um pinheiro manso com cerca de 150 anos.

Apesar de tudo e da falta de energia, que se prolongou por 15 dias, Amália Rino, de 83 anos, não se sentiu desamparada. Além do acompanhamento diário da família, as funcionárias do SAD garantiram sempre os cuidados de higiene ao marido, três vezes por dia, incluindo aos fins de semana, relata, enaltecendo a dedicação de toda a equipa.