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Pastelaria Sar & Doce é ponto de encontro que traz “sensação de normalidade”

Responsável da empresa ficou preso na rua durante o pico da depressão Kristin.

Na pastelaria Sar & Doce, em Leiria, o regresso ao trabalho aconteceu a 31 de janeiro, assim que as instalações voltaram a ter fornecimento de eletricidade FOTO: Joaquim Dâmaso

Três semanas após a passagem da tempestade, o REGIÃO DE LEIRIA foi perceber como é que os responsáveis de negócios de proximidade viveram aquela madrugada e os dias que se seguiram.


Joaquim Almeida dificilmente esquecerá a madrugada de 28 de janeiro. O responsável pela padaria e pastelaria Sar & Doce, também padeiro, estava nessa altura a trabalhar nas instalações da rua Paulo VI, em Leiria, quando falhou a luz e começou a ouvir coisas a partirem na rua. Convencido que poderia ter danos numa das carrinhas de distribuição ou nas montras da pastelaria, foi à rua.

“Foi quando a porta se fechou atrás de mim e vivi aquelas duas horas, não sei quanto tempo foi ao certo, escondido atrás deste pilar [ao pé da loja] porque o vento levava-nos”, conta ao REGIÃO DE LEIRIA. Não sabe como é que aquelas horas passaram, mas lembra-se de estar muito pó no ar e de ser atingido por uma chapa de um dos edifícios próximos, cujas marcas ainda são visíveis num dos tornozelos. “Entretanto a montra partiu e eu consegui saltar para dentro e foi quando percebi a dimensão da minha lesão”, acrescenta.

O responsável diz que não tinha noção do quão forte seria a tempestade e o primeiro sinal chegou dos funcionários que estavam na rua, a distribuir pão, dizendo que não conseguiam passar em todas as estradas. Já de dia, foi quando teve noção da gravidade dos estragos.

Depois de verificar os danos da pastelaria em Leiria, que incidiam essencialmente nas montras da zona de confeção, Joaquim Almeida decidiu ir até à fábrica em Regueira de Pontes. “Lá foi muito pior, há estragos nos telhados, nas chaminés dos fornos e nos carros que estavam lá estacionados”, afirma, adiantando que, no total, o prejuízo deverá chegar aos “50 ou 60 mil euros”.

A somar a isso, sem eletricidade não era possível trabalhar e o produto que estava guardado e pronto a ser cozido teve de ir para o lixo. Conta que no sábado seguinte, 31 de janeiro, a energia regressou e puderam abrir portas em Leiria: “Mas não tínhamos água, por isso decidi que iríamos usar água engarrafada para tudo, desde lavar louça a ir à casa de banho”. A decisão de abrir apesar desta dificuldade passou também por “dar uma sensação de normalidade às pessoas”, que “se sentem acarinhadas ao virem aqui”.

Ao nosso jornal, confessa que, “ao contrário do que diz o Ministro”, o dinheiro para pagar os salários do primeiro mês do ano não estava ainda garantido, pelo que era preciso regressar ao trabalho o quanto antes. “Pagou-se às pessoas que estavam mais necessitadas, com o dinheiro que havia, e depois foi-se pagando aos restantes”, clarifica. Joaquim Almeida sublinha que em empresas mais pequenas, que “trabalham para receberem aquilo que vendem”, é muito complicado.

Atualmente, a pastelaria em Leiria funciona no horário habitual e na manhã de terça-feira, data de fecho desta edição, encontrava-se com muito movimento de clientes. Na zona danificada há vigilância reforçada, para proteger os equipamentos, e é lá que Joaquim Almeida tem dormido. Quanto às instalações em Regueira de Pontes, o trabalho acontece com muitas limitações, até porque o fornecimento de eletricidade ainda está instável. O responsável coloca a hipótese de terminar com o serviço porta a porta, mas ainda não decidiu.

Com uma expressão visivelmente cansada, o padeiro de 56 anos fala da força que é preciso para continuar a trabalhar, pelo negócio e pelos funcionários que dele dependem, mas que é inevitável ter “momentos de grande tristeza e desilusão”, até por tudo o que tem visto e ouvido nas zonas onde a empresa realiza entrega porta a porta. E também o próprio teve estragos na sua casa, que ainda terão de ser consertados.


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