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Leiria quer festa de N.ª Sr.ª da Gaiola no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial

A candidatura da festa de Nossa Senhora da Gaiola, nas Cortes, ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial poderá ser entregue ainda este ano pela Câmara de Leiria.

“Parte da investigação já está feita, estamos a cumprir o nosso calendário, queríamos que fosse até ao final deste ano”, adiantou a vereadora Anabela Graça à agência Lusa.

Questionada sobre as razões que determinaram esta iniciativa, a autarca justificou com a antiguidade da festa, que é “importante para a comunidade”, e a necessidade de compreender como é que “conseguiu ter este significado e permanecer viva ao longo de séculos”.

Anabela Graça, que tem os pelouros da Cultura e Educação, recuou a 1542 e a um documento do rei D. João III, segundo o qual “a festa já existia” e “deveria continuar”.

O documento régio consegue datar “não o início, mas que, pelo menos nessa data, essa festa existia e era já uma festa antiga, que ‘já vem do antigamente’, como está escrito”, referiu.

“É uma festa que é vivida com muitos valores subjacentes, nomeadamente o valor da família, porque cada família participa com o Menino Jesus na procissão”, adiantou, lembrando a distribuição do pão para os pobres no passado e a solidariedade subjacente a este momento.

A vereadora salientou existir “um conjunto de momentos neste ritual religioso que estão assentes em valores de uma comunidade” que se pretende conhecer melhor para a “valorização e a salvaguarda deste património imaterial”.

A iniciativa arrancou em maio (no primeiro domingo desse mês são as habituais festas em honra de N.ª Sr.ª da Gaiola), num ano em que os festeiros foram as pessoas nascidas em 1976 e que mobilizaram a comunidade.

Nesse mês, começou a preparação do trabalho, o levantamento documental, a identificação dos principais intervenientes e as primeiras recolhas. Seguiu-se trabalho no terreno, com entrevistas, testemunhas e documentação das práticas, entre outros aspetos, decorrendo em paralelo a investigação histórica e documental.

Anabela Graça afirmou que o padre David Barreirinhas, que integra a equipa de sacerdotes da Unidade Pastoral das Cortes, “também mostrou vontade em aprofundar a história da festa”, além de que o Plano Estratégico Municipal da Cultura inclui uma linha de ação que passa pela inventariação do património.

“Essa inventariação está a ser feita na comunidade. Este é um projeto participativo, temos tido vários momentos na comunidade em que as pessoas se envolvem, contando as histórias, as histórias da família, tudo aquilo que sabem (…) e a proposta de inventariação vai sair da comunidade”, assegurou a vereadora.

Segundo informação no sítio na Internet da Diocese de Leiria-Fátima, a festa é de “tradição imemorial” e a Carta Régia de D. João III “concede licença aos moradores para realizarem e pedirem para o Bodo”, estabelecendo os critérios de distribuição das esmolas.

Sobre a lenda que envolve a designação da padroeira das Cortes, a diocese cita frei Agostinho de Santa Maria, de acordo com o qual uns rústicos aldeões que pastoreavam o seu gado descobriram no tronco de uma árvore “uma imagem da Mãe de Deus”. Fizeram-lhe uma cabana tecida de ramos, que “parecia mais gaiola”, junto à mesma árvore, iniciando a veneração.

Foi erigida depois uma ermida e, em 1607, “inaugurou-se a nova igreja paroquial”, segundo a mesma fonte.

“A festa de N.ª Sr.ª da Gaiola é habitualmente organizada por um número avultado de mordomos, que tem como motivos principais as cerimónias religiosas, especialmente a sua monumental procissão com os Meninos e seus fradinhos, os cabazes do pão e as imagens das padroeiras de todos os lugares e seus estandartes”, sendo que “atração indiscutível é a distribuição do pão a todos os presentes na festa, uma reminiscência do velho Bodo”.

Para Anabela Graça, uma eventual inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial pode representar “um importante reconhecimento da festa”, mas “o valor deste processo não se esgota na inscrição”.

O trabalho permite reunir documentação, registar testemunhas e conhecimentos, identificar práticas e protagonistas, compreender formas de transmissão e “acompanhar as transformações que permitem que a festa continue a fazer sentido”, acrescentou.


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