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Com “Abraços que cuidam”, crianças exteriorizam o medo que sentiram da tempestade

O projeto está a percorrer várias escolas do concelho de Leiria para ajudar crianças e alunos, do pré-escolar ao 1º ciclo, a lidar com a angústia que a depressão Kristin espalhou e a identificar aspetos positivos

Em cada sessão, as crianças são convidadas a exprimir, através do desenho, o que sentiram durante e depois da tempestade FOTO: PIPSE/Leiria

Dar voz às crianças para poderem partilhar emoções sobre a tempestade é um dos objetivos do programa “Abraços que cuidam”, que está a ser dinamizado, em Leiria, pela equipa PIPSE (Plano Intermunicipal de Promoção do Sucesso Escolar).

O projeto, que arrancou na passada semana nas escolas do 1º ciclo e jardins de infância do concelho, está a ser implementado nas turmas dos alunos que já são acompanhados ao longo do ano pela equipa constituída por 12 técnicos de várias áreas.

Mas não só. “Trazemos também uma mensagem mais positiva sobre a situação e damos algumas estratégias e ferramentas para eles conseguirem lidar com situações mais stressantes, de maior ansiedade, medo e angústia, como foi a tempestade”, explica ao REGIÃO DE LEIRIA Cátia Reis, psicóloga júnior.

Cada sessão dura entre 30 a 45 minutos. Estruturada em três momentos, começa com um abraço, em jeito de acolhimento, que abre espaço para uma conversa sobre “o que eles viram, ouviram, sentiram e quais foram as reações do corpo à situação que viveram”.

As crianças são depois convidadas a exprimirem as suas emoções através do desenho e, para finalizar a sessão, “ensinamos uma técnica de respiração para que eles possam usar também noutros momentos de maior ansiedade”, adianta Cátia Reis.

“A ideia do projeto foi enviada a todos os professores, com suporte da apresentação, para que eles possam também implementar nas turmas a que nós não conseguimos chegar, se assim o entenderem”, acrescenta a psicóloga que, nos primeiros três dias do “Abraços que cuidam”, acompanhou 14 turmas.

Em todas as sessões, o medo e a ansiedade são os sentimentos que as crianças mais descrevem, durante e após a tempestade, conta Cátia Reis. “Muitos estavam a dormir e acordaram com medo. Outros conseguiram permanecer tranquilos durante a noite e só no dia a seguir é que se aperceberam do grau de destruição, mas todos eles, de uma forma geral, relatam este medo”, reporta a psicóloga, considerando caber também à equipa e aos professores “falar das emoções mais positivas que possam ter sentido”. Neste contexto, “alguns deles relatam que se sentiram protegidos junto dos pais, porque os pais permaneceram com eles”, “desenham-se a ajudar” ou “destacam a união de esforços, e isto é muito bom”.

Cátia Reis realça, por outro lado, a importância desta intervenção por contribuir para que os professores estejam mais atentos a alguns sinais de alerta e possam identificar eventuais casos de ansiedade.

Apesar de tardio e da pausa letiva, o regresso à escola constituiu, “sem dúvida, uma mais-valia porque os alunos precisam de rotinas e de voltar, aos poucos, à normalidade”, acrescenta.

A mensagem que queremos passar aos nossos alunos é que é importante falar sobre o que aconteceu e o que eles sentiram, e que a escola é também um lugar seguro para isso, quer nesta situação em específico, quer noutras situações de ansiedade

Cátia Reis, psicóloga júnior, membro da equipa PIPSE de Leiria

Respirar ajuda

Quanto às estratégias para lidar com todas estas emoções, respirar ajuda, e isso é válido tanto para as crianças como para os adultos.

“A técnica que nós temos utilizado baseia-se muito na respiração e na concentração de uma respiração controlada, isto porque se estivermos concentrados em inspirar e expirar os nossos pensamentos mais negativos acabam por se abstrair. Ao estarmos mais focados na nossa respiração sentimo-nos muito mais calmos, o corpo também nos dá essa resposta, o coração bate menos aceleradamente, as sensações de tremor começam a desaparecer”, esclarece. Basta “inspirar pelo nariz, segurar um pouco a respiração e soltar lentamente pela boca” e repetir umas quatro vezes, aconselha.

Aos pais, Cátia Reis recomenda que conversem com os filhos, “dando-lhes espaço, não forçando, para eles falarem sobre o assunto, para se sentirem ouvidos e perceberem que podem falar com os pais se não estiverem bem ou não se sentirem bem, dizendo-lhes: ‘estou aqui se precisares de falar sobre o que se passou e sobre o que sentiste’”.

Quanto ao que mais os marcou, os alunos têm destacado “a queda de telhas, os telhados destruídos, as árvores caídas”. “Muitos relatam também preocupação para com os animais e para com os outros, para com parentes que não estavam nas suas casas, principalmente os avós, falam muito nos avós”, adianta Cátia Reis, referindo que, apesar de manifestarem falta da eletricidade e da Internet, “não é um tema que seja puxado por eles”, conclui.


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