A tempestade Kristin passou, mas deixou um rasto de destruição que semanas depois continua visível. Em pleno séc. XXI, milhares de pessoas na região de Leiria permanecem sem eletricidade, água, comunicações e respostas. O Governo fala. O povo sobrevive.
O que mais assusta não é a força da natureza, é a fraqueza da resposta. As populações não pediram milagres, apenas coordenação e presença. Receberam hesitação e encenação. Senhor primeiro-ministro, pede confiança ao país, mas precisou de ver para acreditar no sofrimento. Essa ironia revela um Governo que só reconhece a realidade quando passa na televisão.
Foram inicialmente pedidos quatro militares para apoiar a região. Quatro. A dimensão simbólica da indiferença diz tudo. Depois, o ministro Manuel Castro Almeida sugeriu que as famílias teriam o salário de janeiro para enfrentar os estragos. Num país onde o ordenado mal cobre as despesas, tal afirmação soa a desrespeito.
Meses antes falou-se em “mentalidade Ronaldo”. Mas o país real não vive num relvado; vive entre telhados destruídos e campos alagados. Idosos subiram a estruturas instáveis, cortaram árvores e arriscaram a vida porque ninguém veio fazer por eles. Essa é a consequência de uma resiliência exigida à distância.
As visitas oficiais pareceram roteiros fotográficos. Faltou um plano para garantir água, luz e comunicações. A solidariedade veio sobretudo de vizinhos, voluntários e empresas que, sem palco, entregaram bens e apoio logístico. Foram eles que seguraram o distrito.
Entretanto, milhares continuam sem rede, mas as faturas das operadoras não falham. Anunciam-se serviços gratuitos que não podem ser usados porque simplesmente não há sinal. Não é ajuda; é desconexão da realidade.
Cada cidadão que comprou água, combustível ou ferramentas para ajudar o próximo pagou IVA. Tributou-se a solidariedade enquanto o Estado justificava a inércia com comunicados e vídeos.
É justo reconhecer quem esteve presente. Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, mostrou humanidade, empatia e ação. Foi governante no terreno quando mais era preciso.
No dia 8 de fevereiro, mesmo perante o caos, milhões votaram para eleger um novo Presidente da República. Cumprimos o nosso dever. Falta o Estado cumprir o seu.
Leiria não precisa de slogans. Precisa de planeamento, resposta e responsabilidade. A solidariedade do povo salvou o que restava. Mas a paciência não é infinita.
Quando o Estado voltar a pedir confiança, talvez encontre a mesma dúvida com que hoje olha para quem sofre.
Paulo Marques
Leiria