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Queda de árvores centenárias mudou o rosto do território no norte do distrito de Leiria

Tempestade Kristin deixou um rasto de destruição no norte do distrito de Leiria, com forte impacto nas áreas florestais e espaços verdes, obrigando municípios a repensar a recuperação do território

Sobreiro classificado tombou no Jardim de Aromáticas e Medicinais, em Pedrógão Grande

A sucessão de depressões atlânticas que atingiu o país, descrita pelos meteorologistas como um “comboio de tempestades”, deixou um rasto de devastação que não poupou pessoas, infraestruturas nem património natural. A Mata Nacional de Leiria, que ocupa dois terços do concelho da Marinha Grande, é disso exemplo. Nas contas do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), mais de 90% dos cerca de 1.200 hectares de floresta adulta foram afetados.

Também no norte do distrito, a chuva intensa, vento forte e inundações foram impiedosos, provocando quedas massivas de árvores de grande porte em parques, a destruição de património e o encerramento de espaços públicos. Entre as áreas afetadas estão os espaços verdes municipais, cuja descaracterização compromete funções de lazer, pedagogia e atração turística. Fora da zona urbana, centenas de árvores foram arrancadas pela raiz, deixando uma preocupação transversal aos responsáveis ouvidos: o perigo do aumento da carga combustível nas áreas florestais, numa altura em que se aproxima a época crítica de incêndios.

Perante a irreversibilidade de perdas como a de árvores centenárias, os municípios estão agora focados em repensar estes espaços com critério, apoio técnico e cautela perante a força indomável da natureza.

Em Figueiró dos Vinhos, os dois cedros centenários que marcavam o enquadramento do Jardim Municipal, quando observado a partir da avenida Padre Diogo (“Ramal”), sucumbiram à força da tempestade Kristin. Apesar da violência do temporal, os plátanos centenários do “Ramal”, classificados como árvores de interesse público, resistiram, preservando um dos mais relevantes patrimónios naturais do concelho.

Menos sorte teve a Mata Municipal do Cabeço do Peão, um dos principais espaços naturais do concelho. Mais de 90% das árvores caíram, restando pouco mais de uma centena de exemplares de um total superior a mil, deixando comprometido o controlo de espécies invasoras, que estava atualmente reduzido a uma área inferior a 500 metros quadrados.

Ainda assim, o responsável municipal pelo Ambiente e Espaços Verdes da vila conhecida como a “Sintra do Norte”, Albino Coelho, garante que a recuperação está em marcha: “Não baixamos os braços. Estamos aqui e o trabalho está a acontecer”.

A Mata Municipal do Cabeço do Peão perdeu cerca de 90% das árvores

Apesar da distância de cerca de 80 km que separa Pedrógão Grande da linha costeira, por onde a tempestade Kristin entrou em território continental, foram significativos os estragos no património natural deste concelho maioritariamente ocupado por floresta (81%).

No centro da vila, o Jardim da Devesa, muito frequentado por locais e turistas, teve de ser imediatamente interdito devido às árvores caídas ou em risco de queda. Deixando o icónico jardim e percorrendo a travessa murada em pedra conhecida como “Calçada do Mendinho”, chega-se ao discreto mas singular Jardim de Aromáticas e Medicinais. Ali existia, há mais de 200 anos, um colossal sobreiro classificado, que jaz agora sobre o delicado espaço de lazer e medicina natural onde, durante décadas, a sua copa protegeu as espécies mais sensíveis.

O responsável municipal pelas Florestas, Ambiente e Agricultura, Luís Correia, revela que, assinalando o Dia Internacional das Florestas e da Árvore (21 de março), estão previstas ações de reflorestação com as escolas, nos jardins e parques verdes.

O Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos perdeu os dois cedros centenários

Repensar espaços verdes

Com cerca de 50 dos seus 67 quilómetros quadrados ocupados por floresta, Castanheira de Pera foi também fortemente afetada pela tempestade Kristin, com impactos significativos na paisagem e no património natural do concelho. No Jardim da Casa da Criança Rainha D. Leonor, um falso cipreste com cerca de 25 a 30 metros de altura teve de ser abatido após ficar instável. A árvore, além de marcar o enquadramento da envolvente à casa mandada construir em 1939 por Bissaya Barreto, integrava a Rota Botânica local. Esta perda junta-se à da magnólia centenária, já derrubada numa tempestade anterior.

O Parque São João da Mata também sofreu danos consideráveis, mas que não colocam em causa a preparação de um projeto de requalificação de cerca de 45 hectares, com uma vertente de parque aventura, que pretende recuperar paisagisticamente aquela área.

A nível florestal, registaram-se estragos extensos, com árvores derrubadas e grande acumulação de material lenhoso, aumentando o risco de incêndio. Parte do investimento recente na gestão de povoamentos de eucalipto acabou assim por sofrer um revés.

O Parque Botânico do Carrascal, em Alvaiázere, foi devastado pela tempestade

Na Ribeira de Pera, a força das águas provocou ainda a destruição total de dois açudes, na zona da Moita e à saída da Praia das Rocas, agravada pela acumulação de troncos e detritos ao longo do leito.

O concelho de Alvaiázere regista também um forte impacto nas áreas florestais. A queda de árvores, muitas arrancadas pela raiz, provocou a obstrução de caminhos e acessos, dificultando os trabalhos de socorro e deixando no terreno grandes quantidades de material lenhoso.

Esta acumulação representa agora uma preocupação acrescida para as autoridades, face ao aumento do risco de incêndio com a aproximação dos meses mais quentes, destaca a autarquia.

O município tem em curso um levantamento técnico detalhado para avaliar a extensão dos prejuízos e definir as medidas a adotar, sublinhando a necessidade de reforçar a gestão e o ordenamento florestal.

Entre os espaços afetados está o Parque Botânico da Mata do Carrascal, na zona urbana da vila, com 14,73 hectares. Inaugurado em março de 2024, este espaço assume-se como um projeto de valorização ambiental e de promoção do lazer e da aprendizagem, integrado numa estratégia de desenvolvimento sustentável do concelho.

Empenhada na sua recuperação, a autarquia solicitou apoio técnico ao Instituto Superior de Agronomia, nomeadamente ao professor catedrático Mário Lousã, que esteve na génese da criação do parque. O objetivo passa por restaurar este património natural, reforçando o compromisso com a conservação e com um futuro mais sustentável.

No concelho de Ansião, a Mata Municipal e Parque Verde foram os espaços públicos com estragos mais visíveis, tanto no que refere à queda de árvores como aos equipamentos. O Parque Verde com menos expressão e com maior facilidade de replantação, sublinha o presidente da Câmara. Já na Mata, localizada no centro da vila de Ansião, enquadrada pela piscina municipal, pavilhão gimnodesportivo e centro cultural, “foi a devastação total”, afirma Jorge Cancelinha. O espaço de excelência para usufruto da natureza, realização de eventos culturais, desportivos e, no fundo, o recreio privilegiado pelos alunos da Escola Básica e Secundária Dr. Pascoal José de Melo, irá agora sofrer uma profunda reestruturação.

Este espaço “muito antigo, de flora autóctone, carvalhos, pinheiros bravos e mansos centenários, medronheiros, que agora vai exigir de nós uma atenção muito especial, vai ser repensado”. Desta fatalidade, o autarca opta por extrair a oportunidade. E a Mata, sendo um postal da vila, pode agora ser reconvertida num jardim botânico das terras de Sicó, com várias espécies do território, refere, apontando a proximidade da escola como “uma boa forma de a tornar num espaço de pedagogia”

A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE


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