Cerca de 20 mil clientes continuam sem serviços fixos de comunicações, três meses depois de a depressão Kristin ter atingido o país.
A informação avançada pela Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) à agência Lusa tem por base dados disponibilizados pelos operadores, segundo os quais “existirão cerca de 20 mil acessos fixos afetados na sequência da depressão Kristin”, em 28 de janeiro.
Numa resposta escrita à Lusa, a Anacom referiu que registou, até quarta-feira, “cerca de 1.200 reclamações escritas relacionadas com os eventos meteorológicos extremos verificados no início do ano”, não incluindo apenas a depressão Kristin.
Entre os principais problemas está a “demora na reposição dos serviços e/ou reincidência de falhas após reparação”, reportes de avaria nos serviços de telefone fixo e móvel, serviços de acesso à Internet fixo e móvel, serviço de televisão por subscrição e televisão digital terrestre.
Outros problemas elencados pela Anacom, presidida por Sandra Maximiano, passam por “dificuldades em contactar os operadores através dos canais disponibilizados para o efeito”, nestes casos “tipicamente demora no atendimento das linhas telefónicas ou sem conseguir falar sequer com o operador”, e “os reportes por escrito através de ‘email’ ou área de cliente” não terem retorno.
A “falta de previsão/data para o restabelecimento integral dos serviços, dificuldades relacionadas com faturação (cobrança do período de indisponibilidade dos serviços, demora no processamento de créditos ou montante creditado insuficiente), cancelamento de contrato por interrupção prolongada, falta de comparência dos técnicos/reagendamento das intervenções técnicas” e “ofertas de rede móvel insuficiente devido à fraca cobertura e desempenho” são outros problemas casos reportados à Anacom.
Acresceram “postes, cabos caídos e caixas abertas” e “dificuldades na apresentação e aceitação de pedidos de cancelamento antecipado relacionados sobretudo com a possibilidade de cobrança de encargos”, esclareceu.
Recuando à madrugada de 28 de janeiro, a Anacom lembrou que a depressão Kristin provocou a “destruição massiva de infraestruturas do sector das comunicações”, afetando “de forma muito significativa os traçados aéreos de cabos” (fibra ótica) e torres de suporte de antenas (torres das redes móveis, mas também de operadores de radiodifusão sonora)”.
“Como resultado verificou-se que as redes e serviços de comunicações ficaram inoperacionais, afetando mais de 200.000 acessos fixos e 300.000 utilizadores da rede móvel”, observou, notando que “as empresas de comunicações eletrónicas e entidades detentoras de infraestruturas aptas ao alojamento de redes mobilizaram, de imediato, um enorme número de operacionais para os trabalhos de reposição das infraestruturas de comunicações danificadas”.
Porém, “dada a vasta extensão territorial da ocorrência, foi necessário fazer uma priorização das ações de recuperação”, admitiu.
“Nos primeiros dias, foram instalados geradores, acessos de satélite, feixes hertzianos, estações móveis transportáveis, entre outros meios, para suprir necessidades específicas das forças atuantes nos trabalhos de recuperação”, sob a coordenação da Proteção Civil.
Segundo a Anacom, “numa fase inicial, os operadores de comunicações eletrónicas procuraram repor o ‘backbone’ da rede, de forma a garantir a conectividade às principais localidades (os grandes eixos), e recuperar as redes móveis, que, desde o início do mês de abril, se encontram operacionais”.
Porém, “a recuperação da rede fixa será mais demorada”, dado ser “necessário reconstruir, em grande medida, toda a capilaridade da rede de acesso”, cada habitação, cada estabelecimento comercial, trabalho que “pode demorar, em alguns casos, muitas semanas”.
“(…) Poderá demorar semanas até se alcançar uma recuperação plena”, acrescentou a entidade reguladora.
Já o coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País disse à agência Lusa que a reposição total dos serviços de comunicações fixos, afetados na sequência do mau tempo, pode ocorrer até ao verão.
“Na última semana, o ritmo da reposição é de cerca de 2.500 reposições por semana (…), esperando-se que, continuando este ritmo, até à entrada do verão e não no outono [como avançado pelas operadoras], possamos ter esta parte do telefone fixo totalmente reposto”, declarou Paulo Fernandes.
“Na zona de Leiria temos uma grande pulverização de habitações fora dos contextos dos núcleos urbanos, o que, obviamente, faz com que haja milhares e milhares de postes que têm de ser repostos, às vezes para núcleos e para habitações muito dispersas, o que tem dificultado a velocidade que todos gostaríamos nessa reposição”, admitiu.
Idosos impossibilitados de pedir socorro por falta de comunicações fixas em Leiria
Dois autarcas do concelho de Leiria manifestaram à agência Lusa preocupação pela existência de idosos impossibilitados de pedir socorro em caso de necessidade devido ao atraso na reposição das comunicações fixas na sequência do mau tempo.
“O que me preocupa nesses casos é que algumas pessoas de idade que não têm telemóvel não conseguem contactar o 112 [número de emergência]”, afirmou o presidente da Junta de Freguesia de Souto da Carpalhosa, Sandro Ferreira, referindo haver ainda muitos habitantes sem reposição do serviço de telefone fixo, praticamente três meses depois de a depressão Kristin ter afetado esta freguesia.
Segundo Sandro Ferreira, esta “é uma situação que, nos dias de hoje, não devia acontecer”. O autarca adiantou que, ao nível da rede móvel, “de vez em quando” não há rede e “está fraca em várias zonas da freguesia”.
“Temos algumas zonas com Internet, mas ainda temos várias zonas, várias casas e várias empresas sem Internet”, salientou o presidente da Junta, esclarecendo que “é um misto” as queixas que recebe.
Em maior número estão os apoios à reconstrução das casas pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, “os seguros que não dão resposta” e as telecomunicações, especificou.
Sandro Ferreira explicou que a junta tem uma equipa que “vai visitar as pessoas”, assumindo que a “grande preocupação” prende-se agora com a “parte psicológica” daquelas.
A presidente da União de Freguesias de Colmeias e Memória, Patrícia Marcelino, comungou das preocupações de Sandro Ferreira.
“Não têm [possibilidade de ligar para o 112] de forma alguma. Se acontecer alguma situação, elas veem-se sozinhas (…). Com estas situações das pessoas idosas e sem alguém ao lado delas, sem terem uma forma de comunicar, pode acontecer o pior”, alertou Patrícia Marcelino.
Explicando que a união de freguesias faz o trabalho de ir ao encontro das pessoas em situação mais vulnerável, a autarca reconheceu que não é um trabalho diário, para sublinhar que seria diferente haver uma forma de comunicar. “Queremos o bem-estar de toda a população da freguesia e não havendo comunicações preocupa-nos, porque não conseguimos chegar a todo o lado”, assumiu.
Numa união de freguesias com uma “população bastante envelhecida” e um território “muito rural”, a autarca esclareceu haver “casas que estão bastante distantes”.
Sobre as comunicações na freguesia, Patrícia Marcelino resumiu que “estão deficientes” e “ainda estão muito longe de chegar à normalidade”.
Na freguesia de Bidoeira de Cima, também no concelho de Leiria, as queixas sucedem-se.
Um cidadão relatou que a mãe, de 89 anos, autónoma, esteve, desde 28 de janeiro, quando a depressão Kristin atingiu o território, sem telefone fixo e não tem televisão. A família acabou por comprar um telemóvel para a idosa e cancelou o serviço fixo.
“A maior parte dos dias não tem rede [de telemóvel], umas vezes tem, outras vezes não”, adiantou o familiar, ressalvando que a idosa, embora viva sozinha, tem apoio perto de casa.
Estrutura de Missão sem reporte de casos concretos
Confrontado com a existência de pessoas impossibilitas de pedir socorro porque não têm o serviço de telefone fixo reposto, o coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País disse à Lusa não ter “reporte de nenhuma situação em concreto”.
Paulo Fernandes começou por explicar que, aquando da reposição das comunicações móveis, foi feito “um trabalho imenso em articulação” com várias entidades e com a disponibilização de equipamentos, para “tentar mitigar naquele momento uma situação muito complexa e muito grave de ausência de comunicações móveis no território”.
“Sabemos que hoje a percentagem de pessoas sem qualquer tipo de comunicação móvel ou fixa, em termos gerais, é muito mais baixa, porque hoje as comunicações móveis são, de facto, bastante presentes”, continuou.
Segundo o coordenador, na situação suscitada por autarcas, o protocolo de atuação passa por “reforçar o serviço de proximidade, seja através da ação social municipal” ou de “apoio ao domicílio, nomeadamente das entidades do setor social”.
“E se for necessário, uma sinalização direta dos casos, para ver se junto às operadoras [de comunicações] pode haver alguma prevalência em termos de atuação mais rápida para a reposição desse caso”.
Acreditando que esta “seja uma situação relativamente pontual que possa estar a acontecer nalguma freguesia destas zonas que ainda não têm telefones fixos”, Paulo Fernandes admitiu que “possam ser distribuídos até sistemas móveis, para que ninguém fique sem a possibilidade de ter contactos”.
“Essa é a sequência, mas volto a dizer que, ao dia de hoje [24 de abril], nos nossos contactos diários com os municípios, ainda não nos tinham reportado nenhum caso concreto, mas obviamente estaremos atentos e iremos enfatizar junto aos municípios este protocolo de atuação”, acrescentou o responsável pela Estrutura de Missão.
Realçando que “as redes móveis se encontram totalmente operacionais” desde o início deste mês e disponíveis para estabelecer chamadas de emergência (112), a Anacom indica, por seu turno, que “para ligar para o 112 bastará existir uma única rede móvel disponível, que permitirá o estabelecimento da chamada mesmo a utilizadores de operadores concorrentes”.