A gestão de resíduos em Portugal enfrenta um momento de transformação profunda, impulsionado por uma visão que vai muito além da simples deposição num ecoponto. O Electrão – Associação de Gestão de Resíduos tem assumido um papel determinante neste caminho, gerindo três dos principais fluxos de resíduos: equipamentos elétricos usados, pilhas e baterias, e embalagens.
Enquanto entidade gestora, apoia produtores, importadores e embaladores a cumprir o Princípio da Responsabilidade Alargada do Produtor, assegurando a recolha, triagem, transporte, tratamento e valorização dos materiais, promovendo a eficiência de recursos e a proteção ambiental.
Entre as iniciativas mais emblemáticas do Electrão destacam-se a Escola Electrão e o Quartel Electrão, dois programas que mobilizam comunidades inteiras para a reciclagem.
A Escola Electrão, que já vai na 15.ª edição, envolve mais de 500 escolas a nível nacional e tem permitido recolher mais de 7.300 toneladas de resíduos ao longo dos últimos 14 anos. Só no distrito de Leiria, 37 estabelecimentos de ensino já aderiram à edição de 2025/2026, participando na separação de pilhas, lâmpadas, equipamentos elétricos e embalagens.
As escolas recebem prémios por cada quantidade recolhida, por cada 100 quilos de pilhas, 100 quilos de lâmpadas ou 1.000 quilos de equipamentos elétricos usados, recebem um cheque-prenda no valor de 75 euros.
A Semana Europeia da Prevenção de Resíduos tem reforçado esta mobilização, com ações de sensibilização, visitas a unidades de reciclagem, exibição de documentários e desafios criativos como o Repórter Electrão ou a Instalação Electrão.
Estas iniciativas incentivam alunos e professores a refletir sobre a redução, reutilização e reciclagem, promovendo comportamentos mais responsáveis dentro e fora da escola.
Já o Quartel Electrão, dirigido às associações humanitárias de bombeiros voluntários, alcançou em 2025 um marco histórico, com 3.007 toneladas de resíduos recolhidos a nível nacional, o que representa cerca de 8% de toda a recolha da rede própria da entidade.
No distrito de Leiria, 17 corporações participaram ativamente, reunindo 248 toneladas de equipamentos elétricos, pilhas, baterias e lâmpadas. Este empenho local, liderado por associações de Peniche, Porto de Mós e Bombarral, traduziu-se em contrapartidas financeiras e prémios superiores a 20 mil euros para as corporações da região.
Os bombeiros recebem verbas diretas por cada tonelada encaminhada, além de distinções regionais e nacionais que valorizam a sua capacidade de mobilização comunitária. Como refere o relatório, “ao longo de 10 edições, o Quartel Electrão já permitiu a recolha e envio para reciclagem de cerca de 20 mil toneladas de pilhas, baterias e equipamentos elétricos usados”.
Matérias-primas críticas
Em 2025, o Electrão recolheu 1.705 toneladas de pilhas e baterias – um aumento de 25% face ao ano anterior. O crescimento foi especialmente expressivo nas baterias industriais, que subiram 26%, e nas pilhas portáteis, com um aumento de 17%.
Em comunicado, a entidade destaca que “as pilhas e baterias não são apenas resíduos: são fontes de lítio, cobalto e outros materiais de que a Europa depende”, sublinhando a importância da reciclagem para a autonomia europeia em matérias primas críticas.
Ricardo Furtado, diretor de Elétricos e Pilhas do Electrão, sublinha que este aumento é um sinal de que Portugal está a posicionar-se para responder a um desafio geopolítico europeu: a autonomia em termos de matérias-primas críticas.
Reciclar uma pilha não serve apenas para evitar a contaminação de solos, serve para recuperar lítio e cobalto, recursos essenciais para a inovação tecnológica e para a transição energética da Europa. Com mais de 10.300 pontos de recolha em todo o território nacional, o acesso à reciclagem de pilhas é hoje uma realidade para a grande maioria dos portugueses.

O humor que obriga a repensar
Apesar dos sucessos pontuais, Portugal enfrenta um cenário preocupante na reciclagem de embalagens. Sob o mote “Atrasados Ambientais”, o Electrão lançou uma campanha que utiliza o humor e o desconforto saudável para alertar para as metas que o país está prestes a falhar.
Em 2024, a taxa de reciclagem de embalagens foi de 58,6%; no entanto, a meta para 2025 sobe para os 65%.
Atualmente, o país ocupa o 21.º lugar no ranking europeu e continua a enviar 59% dos resíduos urbanos para aterros, sendo que apenas 13 das 35 unidades nacionais têm mais de 20% de capacidade disponível.
A campanha pretende acabar com a indiferença e rotular, com ironia, o comportamento de quem ainda não separa os seus resíduos. Recorrendo a um novo “verde elétrico” como sinal luminoso de urgência na televisão e nas redes sociais, o Electrão avisa que não acelerar agora compromete todo o caminho até 2030.
Como afirma o CEO Pedro Nazareth, “estamos atrasados em relação à Europa e às obrigações que assumimos”.