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Kristin: Seis meses. Seis imagens. Seis escritores (II)

A tempestade que as pessoas da região não esquecem é o tema principal por estes dias, quando passam seis meses deste fenómeno que atingiu a região. Publicamos um conjunto de fotografias que seis meses depois continuam na memória coletiva. Seis autores da região associam-se à data.

FOTO: Joaquim Dâmaso

O inominável

Há um uivo que irrompe o silêncio da noite. Vem lá de longe, de incertas lonjuras, que se aproxima galopando, num crescendo, a aumentar de intensidade, acercando-se devagarinho. Um uivo, como vindo do mar, que, ao embater nos cumes, desce pelas encostas em frenesim, numa danada catadupa de sons, um matraquear de guizos, enxameando os vales, enxurrando as planícies. Acordo em sobressalto. Não consigo decifrar qual a natureza daquele uivo, nem de onde provém. Apenas sei que está cada vez mais próximo, mais forte, mais horrendo. É de madrugada. Já não consigo dormir. Nada feito. Aguardo. O uivo já cresceu, agora transformado num rugido metálico, sibilante, feito de milhares de guinchos, ora agudos, ora graves. Aquele rugido assemelha-se à energia, ao frémito de um ser vivo rompendo as fronteiras do nascimento. Com a sua força bruta, escarafuncha e tenta penetrar nos pequenos confins de tudo o que arrebanha pela frente. São poucas as coisas que conseguem resistir à sua fortaleza, à sua contumácia. É pertinaz aquele rugido no caminho que trilha, desvairado. Levanto-me. Vou espreitar o que se passa lá fora, a ver se descortino a razão daquele mal. Vento, muito vento, cada vez mais forte, possante, robusto. Tudo se encontra envolvido pelo vento. Nada lhe escapa. Regresso à cama, abrigo seguro. Já não dá para dormir mais. Apenas desejar que a manhã chegue rápido, e com ela a bonança de um novo dia. O rugido transmuta-se num constante troar, atroz, façanhudo. O telhado agita-se numa dança macabra. Nada parece estar no seu lugar. Torno a levantar-me. Quero compreender o que é aquilo. A porta oferece agora resistência. Não foi como há pouco. Consigo abri-la. Espreitar. Encaro os olhos da besta. Um redemoinho escuro, insano, na sua funesta e insensível rotação. O abismo atrai-me para o abismo. Sinto uma força a puxar-me, a envolver-me. Consigo resistir ao convite, entro e fecho a porta. Estamos desgraçados. Volto à cama. Só me resta esperar pelo amanhecer, pela calma depois da tempestade, pelo Sol. De repente, um inusitado silêncio toma conta de tudo, acabou-se a madrugada e aquele demónio esfumou-se, deixando um rasto de destruição à sua passagem. Não vale a pena nomear aquilo que é inominável, pelo horror da sua presença. Somente nos resta não perder a memória do sucedido e desejar que algo assim tão maligno não volte a soprar do mar. O futuro interrompido, com um passado feito de cicatrizes e o presente suspenso: a vida que poderia ter sido e não foi. Nunca mais serei o mesmo perante as feridas desta paisagem.


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