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Emanuel Rocha

Ecologista

O fogo nunca vence?

Preparar uma época de incêndios não é apenas preparar homens, viaturas, aeronaves e água. É preparar o conhecimento do território onde esses meios vão ser utilizados.

Há uma expressão cada vez mais comum quando falamos dos grandes incêndios florestais: “Há incêndios que são impossíveis de combater”. Compreendo a sua utilização por quem está no terreno, perante fenómenos de intensidade e velocidade extraordinárias, mas talvez devêssemos questioná-la, porque nunca nenhum ficou por extinguir!

Talvez não existam incêndios incombatíveis, existem incêndios que, em determinados momentos e locais, deixam de ser combatíveis com o método que estamos a utilizar.

Esta diferença não é apenas semântica e pode ser fundamental para repensarmos o combate aos incêndios de 6.ª geração.

A água continua a ser um dos meios mais eficientes de combate ao fogo, principalmente pela capacidade extraordinária de absorver energia através do aquecimento e da vaporização. O problema aparece quando a energia libertada pelo incêndio ultrapassa aquilo que conseguimos retirar da equação através da água que chega ao combustível.

Há, naturalmente, limites físicos à capacidade de combate. Como referência operacional, cerca de 4.000 kW/m é o limiar a partir do qual o ataque direto com meios terrestres deixa de ser eficaz, enquanto acima dos 10.000 kW/m a eficácia dos meios aéreos fica severamente comprometida. Isto não significa que o incêndio tenha deixado de ser combatível, mas que, naquele ponto, a estratégia de combate tem de mudar.

Nessa situação, lançar mais água sobre a frente pode deixar de produzir resultados proporcionais. Não é a água que deixou de funcionar, mas o ponto de aplicação é que deixou de ser eficaz.

Um incêndio extremo pode apresentar enorme radiação térmica, fortes correntes convectivas, projeção de partículas incandescentes e velocidades de propagação que tornam o ataque direto extremamente difícil. Mesmo espécies adaptadas ao fogo têm limites. Resistência não significa imunidade e resiliência não significa capacidade de sobreviver a qualquer carga térmica.

Se conhecermos o terreno, o combustível e o comportamento previsível do fogo, podemos identificar zonas onde a intensidade tenderá naturalmente a diminuir e trabalhar antecipadamente sobre elas, aumentando a humidade ou reduzindo a capacidade do combustível para sustentar a propagação, pensar o fogo e preparar o local onde queremos que o fogo seja combatível.

E é aqui que o conhecimento ecológico do território ganha importância.

Conhecer o terreno não é apenas conhecer estradas, declives, acessos e pontos de água. É conhecer o que está sobre essa topografia. Uma encosta de matagal denso não se comporta como um montado com subcoberto reduzido, nem um povoamento jovem como uma área agrícola ou uma galeria ripícola. A estrutura, continuidade, humidade e composição da vegetação influenciam a energia que o fogo pode libertar e a velocidade com que se propaga.

A topografia não deveria, por isso, ser analisada apenas pela sua inclinação e orientação, mas também pelo uso florestal que suporta. Uma encosta, uma espécie e um regime de ventos em conjunto formam um sistema de propagação do fogo.

Não basta saber se determinada espécie é autóctone ou adequada à região. É preciso perguntar que papel poderá desempenhar naquela posição concreta da paisagem.

Esta leitura não pode ser apenas feita apenas através de cartografia ou modelos. A informação técnica é indispensável, mas esta leitura deve ser cruzada com quem conhece verdadeiramente o território: as linhas de água que mantêm humidade no verão, os caminhos transitáveis, as alterações do coberto vegetal, os locais onde o vento canaliza o fogo e as áreas onde historicamente ganha ou perde intensidade.

O conhecimento local não substitui a ciência nem o comando operacional. Complementa-os.

Por isso, o conhecimento da ecologia local tem de fazer parte da preparação da época de incêndios. Antes do verão, deveria ser possível identificar as principais estruturas de combustível, o seu estado, as zonas onde a vegetação poderá favorecer a propagação e os locais onde o relevo, a humidade ou o coberto vegetal poderão contribuir para reduzir a intensidade.

Preparar uma época de incêndios não é apenas preparar homens, viaturas, aeronaves e água. É preparar o conhecimento do território onde esses meios vão ser utilizados.

Os incêndios de 6.ª geração obrigam-nos a aproximar duas áreas que durante demasiado tempo foram tratadas como universos separados: a ecologia e a proteção civil.

Quem conhece a vegetação deve ajudar a compreender o fogo, quem comanda o combate deve reter essa informação e quem planeia o território deve fazê-lo pensando também no comportamento futuro do incêndio.

Não é necessariamente o incêndio que se tornou incombatível, mas é o combate que tem de ser elevado para outro patamar.