Estranho mundo este em que vivemos. E o que mais custa é não saber como é que vai ser o amanhã. Ainda há pouco éramos felizes e não sabíamos.

A doença é democrática, por um lado atinge todos, mas, por outro lado, põe em maior risco os mais velhos como se de uma maldição se tratasse. E uma sociedade que não protege os seus idosos é uma sociedade que não existe e que se resume a um amontoado de cidadãos, sem responsabilidades e conexões.

Quando ponho aquelas proteções todas para ir ver um doente dou por mim a pensar o que será que ele está a pensar de mim? Quase só me vê os olhos e quando lhe pego na mão, a minha que tem pelo menos dois pares de luvas, dou por mim a pensar que saudades tenho de tocar as pessoas e perceber se estão frias ou quentes sem precisar de termómetro. O que passará na cabeça destas pessoas mais idosas que nem sei se entendem completamente o que se está a acontecer?

Não imaginam como é difícil pensar racionalmente e adequadamente com tantos panos e máscaras e viseiras à frente. Quando começamos a tratar dos doentes esquecemo-nos de tudo e tudo parece normal. Muitas salvas de palmas para os profissionais de saúde que trabalham no covid turno após turno, esmagados pelos pesos dos fatos, sem poder fazer coisas prosaicas como coçar o nariz ou fazer xixi. O esforço físico é também um fator de exaustão, para além de todo o peso emocional envolvido. Uma das coisas que nos enche a alma é que, finalmente, a sociedade começa a ver o que é realmente importante e a pôr as coisas nas prateleiras adequadas.

Como dizia o meu filho mais velho, temos que pensar nisto como boas histórias para contar aos netos. Lembro-me da minha avó me falar na gripe espanhola e contar como foram aqueles tempos ainda mais difíceis do que o costume. Como se fizeram amizades para a vida na onda de solidariedade que se gerou na altura. Nunca imaginei viver uma história que só achava que poderia ser um argumento de filme pouco vendável.

Como diz a canção, resistiremos.

(Artigo publicado na edição de 9 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)