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O meu diário: Mãe

É das relações mais desequilibradas: que ser filho nada tem de comparável a ser mãe. Se têm dúvidas, olhem os nossos velhos abandonados.

Helena Vasconcelos, médica hml.vasconcelos@gmail.com

Eu diria que não é só das mais pequenas a maior que o mundo tem, mas ainda a que tem mais poder e força.

Num mundo em que o poder do capital faz mover tudo e tudo arrasta, não me lembro de quase mais nada com mais poder do que este amor descomandado que é ser mãe. É das relações mais desequilibradas: que ser filho nada tem de comparável a ser mãe. Se têm dúvidas, olhem os nossos velhos abandonados cheios de filhos por aí.

A porta bateu e escolhi levantar-me, deixei que ela entrasse sem perguntar ao que vinha e o que queria. Como se soubesse desde sempre que viria. Ela sentou-se sem perguntar se podia e chutou com a frase mais poderosa, com a chantagem mais potente: “A Senhora Dra. é mãe? Então vai entender e perdoar o meu atrevimento”. Estava entendida e perdoada. Também eu queria o melhor para a filha, mas a minha força era de formiga comparada com aquela propulsão que me tinha entrado no gabinete e chantageado a alma. Expliquei que nem tudo corre sempre bem e estávamos a ponderar mudar a medicação, mas que a filha revoltada não colaborava. Expliquei que talvez não tivesse explicado tudo bem e que a falha de comunicação fosse minha. Talvez a Sra. me pudesse ajudar a convencê-la da necessidade de mudar de rumo e puxei de um papel com informação acerca da doença. Com os olhos comprometidos a mulher confessou que não sabia ler nem escrever. Incrédula recuei. Tinha no máximo cinquenta anos, como podia tal ser? Ela ripostou com o maior dos argumentos que ultrapassa qualquer pressuposto da medicina moderna, partilhada com o doente. Que destrói qualquer consentimento informado e que transporta a maior das responsabilidades que conheço. “Faça como se fosse sua filha. Faça isso, que com ela me entendo eu! Eu ainda sou a mãe dela e ela a minha filha”. Baralhada expliquei que não podia garantir que aquele medicamento funcionasse, que podíamos não ter sucesso, que numa taxa não desprezível havia doentes que não respondiam à terapêutica. Ela imparável, e provavelmente cansada das minhas estatísticas, rematou com uma voz doce. “Não se preocupe Dra… Faça como se fosse sua filha e eu fico descansada. Se correr mal, eu compreendo”.

Descobri uma nova guideline que partilho com os mais novos: quando a decisão assentar em conceitos científicos não comprovados e que estão na esfera da opinião do expert, o caminho é fazer como se fossem nossos filhos ainda que alguns possam ter idade para ser nossos avós. Mas que funciona, funciona.

(texto publicado na edição em papel de 4 de maio de 2012)