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Ainda a propósito do Dia da Mulher fica aqui a minha homenagem aquelas de quem ninguém fala, porque nada há para falar. Não pilotam aviões, não caçam ladrões, não descobriram a cura para o cancro, nem fizeram uma tese de doutoramento sobre os microssomas hepáticos. São aquelas que se levantam cedo para ir trabalhar que fazem a marmita delas e dos maridos, que arranjam os lanches das crianças, que as vestem e que são chamadas à escola para ouvir as reclamações do seu comportamento menos adequado. As que têm de aguentar com sermões sobre educação, sobre acompanhamento dos filhos, mas quando chegam a casa enfrentam resmas de roupa para lavar e passar, loiça na pia e um jantar para fazer. As que não usam roupas de marca e que têm um gosto duvidoso no verniz que de vez em quando usam para pintar as unhas. Que só cortam o cabelo na cabeleireira e que quando mais velhas têm cabelos pintados às três pancadas com a cor mais barata do supermercado, ou que deixam raízes brancas a ver se dá até ao próximo mês porque existem outras prioridades no orçamento familiar. Que são boas no cálculo mental para saber quanto podem gastar no supermercado e que no meio do mês transpiram ansiedade ao constatar que o dinheiro não vai chegar. Que sabem fazer bolos porque o dinheiro não dá para os comprar e que quando há festa na colectividade se engalanam todas com as roupas do chinês e dançam nos terreiros empoeirados até o baile acabar. Que amam seus filhos com a mesma intensidade das outras e que sonham com férias em ilhas que não conhecem mas já ouviram falar.

Que aturam companheiros agressivos e se deixam ficar em vidas monótonas e insalubres que não há força para mudar. Que tratam dos seus velhos com carinho e vão tapando os buracos da sua alma com os sorrisos dos seus filhos, as suas conquistas, as suas hipóteses de mudança. Também sentem que têm rugas e corpos que não entram nos parâmetros da revista e sofrem com isso. Estas sim merecem o nosso respeito, a nossa revolta, a nossa atenção.

(Artigo publicado na edição de 15 de março de 2018)