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O meu diário: Parabéns

As coisas mais bonitas da minha vida que não programei foram os meus filhos. Nenhum deles obedeceu a uma vontade escrita num papelinho nem tão pouco a um desejo formulado à meia-noite de qualquer réveillon.

Helena Vasconcelos, médica hml.vasconcelos@gmail.com

Tudo o que me vai acontecendo de bom na vida quase nada foi programado. No outro dia, num destes colóquios sobre coisas que não sabemos fazer mas gostávamos, onde o tema era gestão do tempo, o formador ensinava que para não perdermos tempo com desvios do caminho, devíamos escrever numa folha de papel onde queríamos estar dentro de 5 e 10 anos. Desta forma era só perseguir o sonho para que se concretizasse. Tretas, pensei eu. Como se neste mundo fosse só escrever no papel para que tudo fosse aí parar. Então e o FMI, a Troika e sei lá que mais, não têm uma palavra no assunto?

As coisas mais bonitas da minha vida que não programei foram os meus filhos. Nenhum deles obedeceu a uma vontade escrita num papelinho nem tão pouco um desejo formulado à meia-noite de qualquer réveillon. Simplesmente aconteceram. Quando apareceram nunca era a altura ideal, ou porque ia ter exame ou porque ia mudar de hospital ou porque não tinha dinheiro. Mas o milagre de uma vida sempre superou ninharias e tudo se voltava para essa nova vida de forma que passasse a ser o centro do universo.

Esta semana a minha filha do meio completa 18 anos e olhando para trás consigo enternecer-me com a vida. Passaram a correr estes anos sempre com demasiado trabalho mas ainda assim com algum tempo para desfrutar com eles. Nem sempre consegui pôr em prática os papelinhos e muitas vezes risquei o que lá tinha escrito. Uma das lições que tive da vida, é que quase nunca o que ambicionamos tem assim tanto valor e só quando perdemos uma coisa que achamos básica e certa, conseguimos escalonar prioridades.

A Rita é uma criatura maravilhosa, equilibrada como eu gostaria de ser, sensata e organizada como eu ambicionava. Desde pequena colaborou comigo nas tarefas e organização doméstica e supervisionou a educação do mais novo. Verificava se os trabalhos estavam feitos, se a mochila estava arranjada e se tinha tomado banho. Continua a terminar o jantar (sempre a refilar), a ajudar no voluntariado e a acalmar os irmãos.

Claro que nem tudo são rosas e que muitas vezes ainda me passa pela cabeça dar-lhe uma palmada e outras coisas que não é aqui o local, nem a hora para revelar. Muitos diriam que tínhamos feito um bom trabalho, eu apenas digo que até agora a vida me foi favorável. Parabéns Rita!

(texto publicado na edição em papel de 13 de janeiro de 2012)