Somos um povo de grandes feitos e desafios, mas muito maus na corrida de fundo. Pouco perseverantes, queremos logo tudo, não temos paciência. Se nos derem uma tarefa para executar em dois meses somos os maiores, mas se for em dois anos vai ser muito difícil e se for em dez esqueçam e chamem os japoneses. Em menos de nada acatamos as ordens, criamos grupos de ajuda, paramos de fazer cerveja e passamos a fazer álcool, criamos e executamos ventiladores e tudo mais que for preciso. Somos amigos e solidários, batemos palmas e fazemos sacrifícios uns pelos outros. Garanto que não há melhor povo que este. Abnegado, trabalhador, costuramos máscaras, batas de protecção e até deixamos de dormir para servir a sociedade. Não nos revoltamos, não viramos carros, não incendiamos lojas nem nos amotinamos. As revoluções que fizemos foram sempre com alguma ética, educação e saber estar. Somos uns senhores!

A chatice é quando nos pedem que mantenhamos o folgo muitos meses, muito tempo. Não somos violentos mas viramos as costas. Tiramos as capas de heróis e vamos sentar-nos no sofá a ver televisão, se avizinha passa fome também não teve nunca cabeça, e se aquela empresa está com problemas que tivesse aforrado quando podia, e não comprasse carros ao desbarato. Os nossos juízos de valor são automáticos e implacáveis. Se nos pedem sacrifícios recusamos porque há sempre gente que não é chamada a participar, e com a negligência do outro nos vamos escudando na nossa própria ineficiência. Com mais uns meses esquecemos o país, a região e o povo e voltamos ao egoísmo do costume. Até comprávamos só português se todos comprassem, até protegíamos o nosso comércio mas a nós, a nós, quem nos protege? Como se muda isto não sei, mas está na hora de começar a praticar as corridas de fundo, que não nos vão trazer medalhas mas que nos permitem chegar à meta. Chega de desculpas, temos de ser resilientes. Vamos lá, vamos resistir e reinventar novas formas de prosseguir.

(Artigo publicado na edição de 21 de maio de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)