A propósito do programa quem quer casar com o agricultor lembrei-me de propor este desafio para as pessoas entenderem uma vez por todas o que faz a malta nos hospitais.

Entramos às 8h ou às 4 ou às 11 ou a qualquer hora que se lembrem que podemos dar rendimento.

Saem quando calha, que a saúde está primeiro. Estão proibidos de comer, bocejar ou demonstrar indiferença perante o outro. São sempre acusados de serem pagos pelos outros como se existisse alguma profissão que fosse paga pelo próprio. Todos descontam para nós e nós não descontamos para ninguém. Eu cá farto-me de descontar para a fruta, para o talho, para a EDP e as águas e então para a Galp nem se fala. Desconto para a Zara e desconto muito, mas mesmo muito para o bem comum.

Não temos privilégios de feriados ou férias quando queremos, e as festas dos filhos e amigos estão sempre na corda bamba. Somos tratados com desprezo e com atitudes de fiscalização como se à nossa profissão se sobrepusessem sempre os nossos interesses pessoais. Passam a vida a googlar os nossos diagnósticos, as nossas posturas e conselhos e todos sabem um pouco daquilo que nós fazemos. Se o electricista estivesse sempre debaixo deste escrutínio tinha um burnout que daria cabo dos fusíveis. Temos de enfrentar as medicinas alternativas. Os bruxos, os esotéricos, que não são regulados, por nenhuma ordem laboral e a quem ninguém exige resultados. Enfrentamos o vizinho que aconselhou este medicamento e a revista, o programa do Goucha ou da Cristina que disseram que este medicamento era muito perigoso.

Temos de cumprir horários e escalas produzir debaixo de stress e receber doentes e familiares como se nada fosse. Temos de demonstrar empatia mesmo pelas personalidades mais esquinadas, e oferecer a outra face quando nos batem. Somos apelidados de não termos coração, de não sermos humanos, de sei lá que mais. Nos últimos tempos somos como os jogadores da bola, (mas com ordenados de miséria) quando estamos a ganhar ao vírus somos heróis quando estamos a perder tiram-nos as capas e acusam-nos de pouco profissionalismo.

Casem lá com um profissional de saúde e vão ver que é mais difícil do que dar comer ao porco e mondar o milho. Fica o desafio.

(Artigo publicado na edição de 2 de julho de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)