hml.vasconcelos@gmail.com

Que é como quem diz câmara lenta, que é uma coisa que caiu em desuso. E é o que mais anseio. Comer devagar, dormir sem horário, ter tempo para fazer horas, fazer comida sem pressas. Era assim que eu gostava. Noutro dia dei por mim a desejar passar uma tarde a fazer rissóis, pastéis de bacalhau e croquetes como fazia com a minha avó. Não que eu saiba como é que estas coisas se fazem, mas é tão bom ficar à conversa com alguém enquanto fazemos qualquer coisa de útil com as mãos. Lembro-me quão terapêutico era o croché os bordados, e mesmo os bricolages. Ninguém já perde tempo a apanhar amoras para fazer compota e este é um dos programas que guardo com mais carinho da minha infância Sintomas de velhice, pensarão os mais novos, mas é só meia verdade porque ainda me sinto capaz de fazer coisas diferentes e de ousar mudar coisas na minha vida.

O que me faz falta é essa noção de todo o tempo do mundo. Ter prazer no lazer é também ter tempo para o programar e depois para o saborear recordando. Não gosto de me divertir por obrigação e de fazer mil e uma coisas porque sim.

Costumo dizer que um sinal da primeira maturidade é começar a gostar de sardinhas, cozido à portuguesa e preferir um vinho à refeição em detrimento da cervejola. Outro sinal de segunda maturidade é deixarmo-nos emocionar por uma planta, uma árvore um campo cultivado. Não conheço ninguém que não goste de apanhar fruta de uma árvore ou que depois de experimentar não goste da sensação. Ser dono de uma árvore é um exercício que devíamos propor a todas as crianças para estimular o gosto pela natureza. Viver momentos de slow motion é o que vos desejo neste ano. Saborear é muito melhor do que comer.

(Artigo publicado na edição de 16 de janeiro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)