De repente deparamo-nos com um monstro invisível que nos franqueou as portas de um desconhecido para que não estávamos de todo preparados. Dessas portas caímos diretamente para um alçapão negro de que não sabemos nem como, nem quando sairemos. Essa impreparação aplica-se aos recursos sanitários, onde os profissionais de saúde vão fazendo milagres todos os dias, mas aplica-se sobretudo àquilo que há de mais profundo em cada um de nós. Às nossas experiências, à nossa visão do mundo e à maneira como com ele nos relacionamos.

Somos uma comunidade constituída por gerações já pouco marcada pelas grandes adversidades. Já poucos restam das gerações que viveram as duas grandes guerras… Vivemos não só um longo período de décadas de paz, mas um longo período de décadas de crescimento e desenvolvimento, com um ou outro percalço pelo meio, mas nada que abalasse uma dinâmica, dada por ininterrompível, de bem-estar, segurança e proteção. E habituamo-nos a que o que de mau havia para acontecer, aconteceria lá longe. Aos outros. E não nos dizia respeito.

Em dezembro começamos a ouvir falar no novo coronavírus, mas não tínhamos nada a ver com isso. Em janeiro ouvimos falar da violência da covid-19, mas era lá longe, na longínqua China. Em fevereiro continuava longe, mesmo que já aqui ao pé. Em Itália, para onde íamos fazer férias na neve. Em março, está cá. Com tudo, e a replicar o rasto que deixou para trás. Lá longe, e aqui tão perto. E achamos que não está a acontecer-nos tudo o que estamos a viver!

De repente percebemos que sabemos de nós próprios, e da vida, bem menos do que pensávamos. É violento o choque, sempre que nos confrontamos com as nossas limitações e insuficiências!

(Artigo publicado na edição de 26 de março de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)