O Ministério da Defesa quis rectificar o uso da língua e o modelo de comunicação nas Forças Armadas, através de uma “Diretiva”, e impor à tropa o uso “de uma linguagem não discriminatória,” em nome da igualdade de género. Recorde-se que na tropa as mulheres e os homens sujeitam-se aos mesmos regulamentos e códigos de conduta e podem atingir os mesmos postos. Pilotam aviões, comandam navios, carros de combate e unidades orgânicas e ganham o mesmo, consoante o posto, o que não acontece na sociedade.

Segundo a “Diretiva”, não se deve utilizar o género masculino para designar as pessoas de ambos os sexos e indigna-se por se usar “ o masculino plural como genérico,” o que torna a “mulher invisível” na comunicação. Propõe a utilização de termos neutros. Assim, a tropa devia escrever e dizer “a coordenação” em vez de “o coordenador”, “pessoa que se candidata” em vez de “candidato”, “quem requer” em vez de “o requerente” ou soluções alternativas do género “boas-vindas a todas as pessoas” em vez de “sejam bem-vindos”. “Os políticos” deviam ser designados por “classe política” e aqui pode haver um problema de classe!

Na prática, a coisa era complicada. Não é fácil substituir soldado por “soldada” ou evitar “os quartos de sentinela”! A “Diretiva” deixava de lado palavras muito perigosas do género feminino, como guerra, artilharia, bomba ou bazuca, tão em voga no discurso político. Também interditava expressões do género “deixa-te de mariquices”, que para os bens intencionados quer dizer mania ou capricho, ou “pareces uma menina” e “porta-te como um homem”, sinónimo de “tê-los no sítio”, o que deve dar jeito debaixo de fogo, e omitia “Maria-rapaz”! Não era referida a expressão “ponham-se em bicha de pirilau”, o que deu alguma tranquilidade aos quartéis! Mas se o movimento rectificativo fosse em frente, como se ia passar a dizer tanque? Máquina de lavar roupa não é a mesma coisa! E como mudar o género de avião, navio e míssil? Apesar de termos poucos e de curto alcance! E se a expressão militar “os meus homens” é de sabor possessivo e algo esquisita, não melhora por se passar a dizer  “os meus homens e as minhas mulheres”! Aliás, a poligamia é proibida! E o que fazer às centenas de vocábulos e expressões de origem militar que impregnam a nossa língua, como “a apanhar bonés”, ”bater a bota”, “ir a pique” ou a “brincar com a tropa”? E o que fazer à linguagem amorosa de origem e sabor militar? Como tornar neutra a “conquista” de outra pessoa, as setas de Cupido a trespassar corações, a expressão “ fazer o cerco” ou o dramático “levar com os pés”, para não falar em “assédio”! E vamos continuar a cantar “Heróis do mar”, sem haver uma heroína? E tem de se rever “Os Lusíadas” de Camões que começam logo com “As armas e os Barões assinalados”! As armas ainda vá que não vá, mas sem uma baronesa!

Face a diversos protestos, saiu o “tiro pela culatra” à “Diretiva” e o ministro que começou por dizer que esta “não tinha relevância nenhuma”, para evitar “danos colaterais”, acabou a  anulá-la “por não evidenciar estado de maturação adequado”. Enfim, tudo a “andar com a borda debaixo de água”. Entretanto, a Força Nacional Destacada na República Centro-Africana carece de meios aéreos próprios!

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 8 de outubro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)