Num mundo em mutação constante, nunca, na nossa história de vida, vivemos um tempo de tamanha incerteza e descontinuidade. A COVID19 relembrou-nos o quão efémera é a nossa existência, enquanto seres humanos, mas também a importância do coletivo na esfera individual. De facto, e na senda da conceção durkheimiana, existimos muito para além de nós próprios, existimos em sociedade. O Homem, além de produtor, é produto da sociedade, resultando daí que esta vivência pandémica nos evoca o quão solidário pode ser o ser humano, da mesma forma que nos permite conhecer o lado mais negro de uma sociedade desigual, longe de ser inclusiva, de todos e de cada um. No que à Educação diz respeito, o ensino à distância falhou, por não ter conseguido suprir as necessidades de todos os alunos, de forma equitativa. A igualdade com destinatários em condições, absolutamente, desiguais nega-se a si mesma.

As alterações, porque conjunturais e avulsas, não alcançaram a base estrutural. Assistimos à vulnerabilidade, a que muitos estão sujeitos, que constitui a rampa de lançamento para a estigmatização e consequente segregação, intensificando-se, desta forma, o que há muito se constata – a fragilidade socioeconómica das famílias, retratada nas assimetrias sociais da sociedade portuguesa.

Mais uma vez, um número significativo de famílias, comummente, denominadas de disfuncionais, por força das suas condições socioeconómicas, não conseguiu acompanhar, de forma eficaz, os seus educandos na realização das multitarefas, escolares, executadas em ambiente familiar. Esta designação é, em si mesma, absolutamente, discriminatória, qual estrela de David.

Na verdade, as oportunidades, também em matéria de educação, encontram-se intrinsecamente correlacionadas com as desigualdades sociais desde tenra idade. Não basta os governos oferecerem computadores, ou capacitações várias, e publicitá-las, desmedidamente, a título do politicamente correto, mascarando o(s) problema(s). Os alunos não precisam, apenas, de recursos físicos, é necessário monitorizar as suas eventuais carências, de forma continuada, para que se possam ajustar estratégias e orientações efetivas no sentido da inclusão e justiça social.

De facto, apesar dos indubitáveis esforços multifocais dos profissionais de educação, e de uma extraordinária capacidade de adaptação destes à mudança, mostrando-se como, absolutamente, insubstituíveis no processo ensino-aprendizagem, as desigualdades sociais emergiram, abrupta e desenfreadamente, numa sociedade onde se preconiza, a todo o instante, o pluralismo, a unidade na diversidade e a equidade.

Urge combater a pobreza de forma efetiva, criar condições para que as famílias se possam envolver, com a dignidade a que têm direito, na aprendizagem escolar dos seus educandos, sob pena de estarmos cada vez mais distantes da proximidade de cada um.

Numa realidade de ensino à distância, ou presencial, é fulcral que a escola possa servir o seu propósito, o de formar cidadãos conscientes, ativos e felizes, numa linguagem transversal e coesa. Para isso, há que criar condições estruturais, para que a educação inclusiva deixe de ser uma utopia.

É tempo de a Educação ser, verdadeiramente, uma prioridade política nacional, de valorizarmos, de forma efetiva, a diversidade assente numa sociedade plural, conducente à coesão social.

(Artigo publicado na edição de 13 de agosto de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)