Se nos preocupamos realmente com o futuro da diáspora portuguesa, não repitamos os erros do passado.

Praticamente, em todas as análises sobre os tempos que correm duas palavras são constantes: mudança e crise. Já, o nosso grande poeta Camões, observava que “o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. Só que agora os tempos se aceleraram e as mudanças, por vezes demasiado rápidas e bruscas, deixam-nos como que desamparados.

Julgo, por isso, que devemos lançar um novo olhar sobre a nossa diáspora muito mais exigente, e acreditar no seu futuro potencial que passa também pelo olhar que temos de nós próprios. E esse tem de ser um olhar auto-confiante.

Respeitados pelo seu trabalho, pela sua dinâmica, e pela integração exemplar nos tecidos sociais locais, os nossos compatriotas são hoje a imagem de um Portugal bem longe dos clichés do passado. Sucesso e ambição de uma boa parte nos diferentes sectores de actividade, sobretudo das novas gerações, não resultaram no afastamento em relação ao país de origem, mesmo quando a ideia do regresso se perdeu num passado longínquo por se sentirem simplesmente rejeitados e relegados para um segundo plano. Pelo contrário, a grande maioria mantém vivo o orgulho nas suas raízes lusitanas e uma relação de afectividade profunda com Portugal. Devemos por isso olhar a diáspora portuguesa sem paternalismos caducos e avaliá-la por aquilo que na realidade representa. Se “onde há portugueses, há Portugal”, é nosso dever ir além de atos esporádicos de suposto apoio, como que numa forma de lisonja sentimental da nossa portugalidade, trabalhando em conjunto com eles para pôr em relevo e capitalizar o progressos que têm logrado no estrangeiro e de que Portugal pode e deve beneficiar e sobretudo se orgulhar! Infelizmente, nem sempre é o caso !

Não é razoável continuar a lembrar os nossos portugueses residentes no estrangeiro apenas quando convém, como nas vésperas de atos eleitorais e com uma intolerável superficialidade.

Convém também não esquecer que as remessas de emigrantes têm uma forte influência na economia portuguesa. Para se ter uma ideia do impacto das remessas, em 2019, os portugueses no estrangeiro fizeram remessas de 3,6 mil milhões de euros, o que representa o valor mais elevado entre todos os países da União Europeia. Não só é lamentável pensar a diáspora apenas como fonte de remessas, mas pergunto eu também se existe um reconhecimento de toda esta contribuição? Não Faltará aqui uma aposta clara na nossa diáspora através de uma relação de valorização e empoderamento, com uma comunicação fluída ? Não será necessário pensarmos na diáspora de forma estruturada, enquanto pilar importante no processo económico português?

Somos todos portugueses não havendo “cidadãos de segunda categoria”! Mais ainda, os nossos portugueses com residência lá fora são verdadeiros embaixadores e promotores da língua portuguesa no mundo.

Talvez o regresso geográfico dos nossos portugueses não seja expectável. Mas é sempre possível o seu regresso à cultura portuguesa, para o qual a língua portuguesa é a alavanca primordial. Este é, por isso, o tempo para, sem demoras, equacionar verdadeiras políticas de reencontro dos portugueses residentes no estrangeiro com Portugal. Saibamos fazê-lo. Não reiteremos os erros do passado!

(Artigo publicado na edição de 7 de maio de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)