No romance “A Batalha sem Fim”, de 1932, Aquilino Ribeiro descreve uma “assombrosa terra de bosques e de dunas, martelada pela onda”. Referia-se à Praia do Pedrógão, que saiu do anonimato directamente para a estante das letras nacionais. E pela porta grande.

A história desenvolve-se a partir de uma lenda. Num triângulo situado entre o Coimbrão, Osso da Baleia e o Pedrógão estaria enterrado um tesouro que os frades crúzios teriam escondido em tempos imemoriais.

José Algodres, protagonista do romance, resolve convencer os pescadores a virar costas ao mar e a procurar em terra a fortuna: “O mar não me dá sorte…há-de ma dar a terra,…”.

Este pobre povoado piscatório, retratado por Aquilino, vai tornando-se nas décadas seguintes estância de veraneio de famílias burguesas. Era o tempo do Casino. Anos mais tarde, veio a democratização, o parque de campismo e o boom de construção. Nessa altura, a praia tentou transformar-se num pólo de atracção nocturna. Quem não se lembra da “Stressless” e da “Locopinha”… Chegavam a vir pessoas de Lisboa só para a noite.

Tudo isso passou e a praia agora está numa encruzilhada. Perdeu o carisma singular de outros tempos e nenhum dos caminhos tentados lhe trouxe uma saída, ao contrário de outras que conseguiram encontrar o seu rumo. Como São Pedro, que preservou a sua aura de praia selecta, conservando a atmosfera e arquitectura. Ou as praias dos concelhos de Torres Vedras, Mafra, Lourinhã, Peniche e Nazaré, por exemplo, que encontraram no surf o seu tesouro.

Que desígnio, então, para a Praia do Pedrógão? Como desenvolver uma praia atraindo pessoas e criando uma economia dinâmica sem estragar ainda mais a paisagem, cumprindo as exigências contemporâneas e melhorando a qualidade de vida?

O Pedrógão, a única praia do concelho de Leiria, está encravado entre o mar, as dunas e o que resta das matas nacionais. É o epicentro de um vasto areal que se estende para norte e para sul do país, virado para o Atlântico.

Antes como hoje, encontrar o tesouro dos frades crúzios é o desígnio do Pedrógão. Não é ouro nem diamantes, como sonhava José Algodres. Mas bem pode ser o lixo marinho e o plástico que navega nos oceanos e é um dos mais sérios problemas que se abate sobre todos nós.

Pedrógão, pela sua localização no país e no mundo, pode transformar-se num centro de referência a nível mundial, dedicado à investigação, monitorização e interpretação do lixo marinho. Um centro dedicado ao conhecimento e à busca de soluções para a preservação dos ecossistemas marinhos e costeiros. Um polo que reúna massa crítica e grandes especialistas da área. Assim saibamos juntar forças.

Hoje, ao cruzarmos as ruas do Pedrógão, já não reconhecemos o povoado piscatório pobre e miserável de Aquilino. Agora, ansiamos por escrever um novo romance. Onde o tesouro dos crúzios continua ao nosso alcance e à espera de ser aproveitado. E quem sabe assim, com este desígnio, a Batalha tenha um Fim.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 27 de fevereiro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)