A morte de Vítor Jorge encerra, também para mim, um ciclo. Eu tinha 19 anos. A Rádio Comercial de Leiria e o Jornal de Leiria eram as minhas primeiras escolas de jornalismo. E, à distância, o Correio da Manhã. Era seu correspondente há apenas quatro meses.

É redundante escrever que a minha vida profissional mudou para sempre, em resultado das dúzias de linguados (explique-se aos mais novos: folhas normalizadas próprias para notícias) escritos na altura e até a cada data redonda passada sobre a tragédia da praia do Osso da Baleia.

Mas isso não é o mais relevante.

A praia, aquela praia, por coincidência a única do meu concelho de batismo, continua a arrepiar-me. O medo que sentimos – polícias, jornalistas e população em geral – durante os dias em que Vítor Jorge andou em fuga, parece regressar com o espraiar de cada onda.

Era procurado, mas poucos queriam de facto encontrá-lo. A forma como matou, a fuga, as mensagens que  escreveu em folhas de eucalipto compuseram um ambiente de terror.

Por isso, a sua captura foi uma espécie de anticlimax. Sem oferecer resistência, fragilizado, foi transportado para hospital de Leiria (atual D. Manuel de Aguiar). O monstro parecia ter desaparecido.

Assim foi também no julgamento, na cadeia, no resto da sua vida.

Mas nada disso faz esquecer a sua trágica assinatura no diário que enviou ao Correio da Manhã, da Estação dos CTT de Santana, em Leiria, com impressões digitais a sangue no envelope: “Lamentavelmente consumado e engrossado o início da minha loucura. Médicos agora acreditam? Osso da Baleia”.

Artigo publicado no REGIÃO DE LEIRIA em dezembro de 2018