A política é a arte de bem governar os povos, mesmo contra a sua vontade. Não é por acaso que quanto maior é o poder mais distantes e bem guardados estão os governantes, como se vê pelos exemplos do Kremlin, em Moscovo, e do palácio Topkapi, em Istambul, ou pelos guardas pretorianos romanos, ou pelo exército de Janízaros dos sultões otomanos. Não eram os inimigos exteriores que assustavam os czares e os sultões, eram os seus povos e destes se defendiam com o distanciamento fortificado e forças de elite. A isto chama-se pragmatismo político.

Aplicada a pragmática aos tempos atuais e às presidenciais, Marcelo e Costa, dois impenitentes pragmáticos, estabeleceram um pacto tácito, o primeiro sabe que é imbatível, o segundo tem consciência de que o PS não tem um candidato alternativo e que Marcelo é o garante da governação à esquerda.

É preciso perceber a estratégia de Costa. A “geringonça” só vingou por ter havido um Marcelo cooperante, não que este morresse de amores pela solução, mas por necessidade; com o PSD em estado catatónico, não havia alternativa de governo, pior do que dar uma mãozinha à esquerda, seria deixar cair o país no vazio de soluções políticas estáveis.

A “geringonça”, inventada por Costa, não se teria mantido sem o apoio cooperante de Marcelo e sem ele nunca teria havido ou haverá frentismo de esquerda no governo. Enquanto o PSD não recuperar a energia vital, eventualmente aliado ao Chega, Marcelo manterá o apoio a Costa. Então para quê um candidato do PS sem hipóteses? Para acabar mais rápido com a frente de esquerda? Para tirar o PS do poder? Só para afirmar egos e ambições? Costa já avisou, sem acordo à esquerda, há crise política. Também deu a entender na Autoeuropa, sem Marcelo acabou-se. Só não percebe quem não quer, na política não se faz o que se deseja, faz-se o que é possível.

(Artigo publicado na edição de 17 de setembro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)