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Passageiro do tempo: O equívoco das eleições europeias

A campanha tem servido apenas como ensaio para as legislativas, a culpa foi do PS despesista, grita-se à direita, a culpa foi do PSD/CDS amigos da Troika, grita-se à esquerda.

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José Manuel Silva, professor/gestor do ensino superior jmsilva.leiria@gmail.com

As eleições europeias ocorrem num momento de particular significado para os portugueses pois voltámos a ser considerados um Estado adulto, isto é, capaz de se autogovernar sem o garrote dos credores internacionais sob a pele da Troika, causa maior de todas as nossas frustrações nacionais e ansiedades pessoais, que nos veio obrigar a pôr contas em dia, impostos em alta, remunerações em baixa e desemprego como não há memória.

Sejamos honestos, isto é o filme do costume em cópia atualizada, é só olhar para a nossa história, dívida pública insustentável, finança internacional a aproveitar e os mais frágeis a sofrerem, contribuintes sobrecarregados de impostos, reformados agora espoliados de parte significativa das reformas que julgavam intocáveis, desempregados sem hipótese de voltar a ter um trabalho estável, recém-formados que engrossam a geração dos doutores mal pagos e dos emigrantes instruídos, e uma série de chicos-espertos para quem estes períodos são maná caído do Céu.

Pelo meio há os que aguentam, “ai aguentam”, as empresas sólidas que se mantiveram ou se reinventaram e que fizeram subir as exportações, uma geração de novos empreendedores que descobriram novas formas de fintar as dificuldades e um mar de gente que descobriu e faz pela vida cá e lá, isto é, são portugueses do mundo e trabalham ou fazem negócios onde existem oportunidades.

Somos um país resiliente, de descobridores, de aventureiros, de resistentes, que ainda ontem dividia uma côdea de broa e uma sardinha pela família e hoje não dispensa uma mesa gourmet, capaz do melhor e do pior, que abriu “novos mundos ao mundo” mas que se inebria com a riqueza alheia, se distrai nas contas e se lança nos braços dos agiotas quando a festa chega ao fim.

Era interessante que estas eleições servissem para discutir as grandes questões da governação da Europa, do equilíbrio entre estados, da burocracia excessiva, das políticas que não acautelam os interesses dos europeus mais frágeis, mas não, a campanha tem servido apenas como ensaio para as legislativas, a culpa foi do PS despesista, grita-se à direita, a culpa foi do PSD/CDS amigos da Troika, grita-se à esquerda, e lá vão os andores passando perante o desinteresse generalizado dos eleitores. Pobre país de tão rija gente que de tanto pelear se esquece de governar.

(texto publicado na edição de 22 de maio de 2014)