A vereação socialista quer patrocinar uma estratégia para o desenvolvimento do concelho de Leiria, a aplicar na “década de 2021-2030”. Em princípio, não adviria mal nenhum ao mundo, visto que grande parte das decisões políticas têm resultado de circunstâncias ocasionais. A cidade e o concelho precisam de uma estratégia de desenvolvimento que permita superar as condicionantes estruturais existentes e preparar o futuro.

O texto da deliberação pode ser dividido em duas partes, pouco cerzidas entre si. A primeira parte é composta por um aglomerado de lugares-comuns e piedosas intenções ao serviço de “uma metodologia de múltiplos fluxos,“ a aplicar em torno de “quatro grandes desafios temáticos: Pessoas, Sustentabilidade, Território e Produção-Qualificação-Inovação.”

A CML prevê adquirir os “ direitos autorais sobre a obra que corporizará o documento final, pelo valor máximo de 35.000€.”

A segunda parte revela a personalidade escolhida, o professor Carlos André, para mediar as iniciativas de todo o processo e “proceder à elaboração do documento estratégico necessário à construção de uma Estratégia 2030”.

Um trabalho deste género não pode deixar de ser colectivo e de obedecer a princípios de abertura política, de rigor técnico e normativo, bem como de transparência e de imparcialidade.

A CML deve equacionar um amplo consenso político e social, em torno do documento final a criar, muito para além das baias partidárias. Assim, não se percebem as razões para serem protegidos os potenciais direitos de autor do professor Carlos André, sem que haja idêntica atitude para com todos os contributos a produzir pelas entidades e pelos cidadãos que vierem a colaborar na elaboração da estratégia. Ainda vamos acabar por ter um documento que vai servir de base ao programa de uma candidatura autárquica socialista!

O tempo escolhido para a aprovação do professor Carlos André foi inadequado. De momento, decorre a campanha eleitoral para a Federação Distrital do PS, em que o professor Carlos André assume o papel de mandatário de uma das listas. Devia ter havido o cuidado de evitar que a decisão tomada fosse capaz de gerar leituras passíveis de beliscarem o dever de neutralidade da CML, em relação a qualquer uma das partes envolvidas na disputa interna dos socialistas.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 5 de março de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)