Em última instância, a propaganda política visa transformar um ser qualquer em grande líder e seduzir os eleitores a colocar a cruzinha no lugar adequado para a ascensão ao poder. É certo que a política costuma ter mais de irracional e de paixão do que de racionalidade. A linha divisória é quase sempre garantida pela propaganda e, hoje, também, pelas “notícias falsas” que inundam as redes sociais, alimentam o preconceito, procuram manipular as opiniões e adormecer as consciências. A propaganda política prende-se com o poder, a sua conquista e manutenção. Procura construir uma “verdade oficial” que legitime as acções empreendidas pela governação e faça esquecer os lados “negros”, os dislates e as omissões.

Quando as coisas não correm bem no exercício do poder, usa-se para criar novos factos, distrair as atenções e limitar os estragos. A propaganda é utilizada tanto em democracia quanto para sustentar uma ditadura. Apesar de, em democracia, ter de conviver com a liberdade de expressão e de, em ditadura, se apoiar na censura e na repressão.

Em situações de maior tensão ou de crise é utilizada para criar um clima de “unidade” em torno das decisões do poder, esbatendo a conflitualidade e gerando o conformismo nas atitudes.

A propaganda pretende, ainda, construir uma visão ideal sobre a realidade ou mesmo a sua mitificação. Dirige-se à emoção geradora de uma empatia que evite o pensamento analítico.  Assim, quem pensa de maneira diferente ou age com sentido crítico não pode deixar de ser visto de soslaio e com desconfiança.

A nível local, nunca houve um poder como o que vamos tendo que alicerçasse de forma continuada o seu discurso na propaganda e na autoglorificação, sobretudo, através das redes sociais. Existem sítios hagiográficos, oficiais e oficiosos, onde se exalta a política autárquica e Leiria como “uma cidade cheia de experiências, um território de maravilhas.” Não existem áreas degradadas, fenómenos de desertificação, insuficiências urbanísticas, águas poluídas e cheiros nauseabundos, nem carências sociais. Como símbolo da função ilusória da propaganda fica o cartaz onde se lê: “Leiria, cidade de experiências”, amarrado a um prédio em ruínas! Um dos muitos que aguardam reabilitação e uma outra política para a cidade.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 28 de maio de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)