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Sociedade

Motorista das Pedreiras premiado por fazer 3,7 milhões de quilómetros

José Ferreira Marques vive em Pedreiras, Porto de Mós. Recebeu um prémio internacional e revela cinco máximas para se ser um bom motorista. (com vídeo)

Três milhões e 700 mil. Eis um número que nos faz imaginar qualquer notícia sobre o défice, qualquer tranche da dívida portuguesa ou a quantidade de pessoas que poderão vir a ser atingidas por mais uma medida de austeridade.

Longe disso. Estes três milhões e 700 mil correspondem a uma soma de quilómetros que José Ferreira Marques e o seu camião já fizeram ao longo de 25 anos ao serviço de uma transportadora portuguesa. Um milhão e 120 mil quilómetros foram percorridos em solo lusitano, os outros, 2,6 milhões, em estradas internacionais.

José Ferreira Marques, aos 61 anos, ainda veste literalmente a camisola. De manhã vem preparado para responder “como for capaz” à curiosidade do jornalista com uma t-shirt da Luís Simões, a transportadora que lhe “dá” quilometragem para receber prémios. O mais recente foi-lhe atribuído por uma organização internacional sedeada em Genebra, Suíça, agora guardado no recato de casa, mas disponível para uma espreitadela sempre que lhe puxam pelo orgulho.

É verdade que alguns dos quilómetros foram feitos ao engano? José Marques é rápido a garantir que ao contrário da distância que já percorreu, os enganos foram poucos. Não lhe dá muito para o sono, porque diz que não tem vagar para isso, mas o pé pesa-lhe no acelerador. Só que como há limites de velocidade, mas também um número máximo de horas que deve ir ao volante, José Marques confessa que para cumprir as missões só se safa “se for sempre no limite”.

José Ferreira Marques, vindo da Guiné onde tirou a carta profissional em 23 dias, teve que esperar até ao dia 25 de Abril de 1992 para poder comprar e guiar o seu próprio carro. Primeiro teve que fazer a casa e dar tecto à família, depois de ter já garantido que não ia faltar comida à mesa de refeições.

Maria Celeste, a mulher, foi à dispensa para enriquecer o almoço, que está a preparar. O marido e motorista desdobra o poema que lhe escreveu, em Espanha, há coisa de dez anos, quando um dia, ao parar, talvez se tenha sentido mais sozinho. E ali, naquela cozinha, enquanto espera pela comida de Celeste e pela reforma dos camiões, lê aquelas palavras escritas que agora alimentam a memória e fazem a saudade rimar: “ao lembrar-me da família/de manhã ao levantar/levantei os olhos ao céu/e logo fiquei a chorar”.

Cinco máximas para se ser um bom motorista, segundo José Marques

1 Gosto pela profissão e uma boa “máquina”

2 Ter um camião como um escritório: limpo e arrumado

3 Ter sorte. E procurar essa sorte

4 Ser atento a todos os detalhes

5 Ter saúde

Os critérios de atribuição do diploma de honra da International Road Transportation Union é uma distinção que só pode ser atribuída a condutores que:

1 – Tenham efectuado enquanto condutores profissionais no mínimo um milhão de quilómetros em transporte nacional e internacional

2 – Nos últimos 20 anos não tenham causado por sua responsabilidade qualquer acidente grave, acarretando lesões corporais

3 – Nos últimos cinco anos não tenham infringido gravemente as prescrições rodoviárias, aduaneiras ou administrativas

4- Que exerçam a sua profissão há 20 anos de forma ininterrupta e que estejam há pelo menos cinco anos ao serviço do mesmo empregador

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