Associações ambientalistas e cívicas elegem as descargas das suiniculturas na ribeira dos Milagres, no concelho de Leiria, como um dos maiores problemas ambientais do distrito e instam os futuros deputados a colocá-lo nas suas prioridades.

“Gostaria que os partidos se envolvessem nisto, mas fizessem mais que mostrar solidariedade connosco e com a ribeira”, disse à agência Lusa o porta-voz da Comissão Ambiente e Defesa dos Milagres que há cerca de 20 anos denuncia descargas poluentes para a ribeira.

Rui Crespo lamentou que o interesse dos partidos se manifeste quando “se aproximam eleições” e pede mais trabalho “a nível central”, admitindo que a resolução deste problema poderia traduzir-se no número de votos.

A propósito da despoluição da bacia hidrográfica do rio Lis, onde se situa a ribeira, a presidente da Associação para o Desenvolvimento de Leiria (ADLEI) dirigiu, também, um pedido aos poderes públicos: para que sejam, agora, “proactivos numa solução rápida e definitiva”, dado que, “durante tantos anos, por omissão, fizerem parte do problema”.

“Arrastando-se este problema ao longo de tanto tempo, obviamente que a avaliação sobre os diferente poderes políticos que tinham capacidade para o resolver só pode ser negativa”, acrescentou Anabela Graça.

O presidente da Oikos – Associação de Defesa do Ambiente e do Património da Região de Leiria considerou que as descargas na ribeira dos Milagres espelham a “incapacidade do poder político local e nacional de resolver o problema”.

Nuno Carvalho apontou, igualmente, a fiscalização inexistente e a ineficácia das coimas aplicadas aos prevaricadores, defendendo que, do ponto de vista da ação política, este problema “deve ser prioridade”.

O dirigente da associação ambientalista Quercus, Domingos Patacho, reconheceu que “empenhamento” para colocar um ponto final nas descargas – situação que passa pela construção de uma estação de tratamento de efluentes suinícolas – até “pode haver”, mas sem consequências no terreno.

A prová-lo está o facto de as descargas – “recorrentes” – na ribeira dos Milagres passarem de uma “situação anormal para normal”, assinalou o responsável, referindo que estas alimentam a desconfiança do cidadão nas autoridades com a missão de fiscalizar e punir.

Considerando o Bloco de Esquerda como o partido com “atuação mais persistente no alertar desta situação”, Domingos Patacho, referiu, ainda outro problema na região: a exploração de novas pedreiras, que se somam às que estão abandonadas.

“Quem manda é o Ministério da Economia, que está longe, que não vai ao terreno e quer receber o dinheiro das taxas e licenças”, declarou, adiantando que com este “problema de ordenamento de território as próximas gerações arriscam-se a ficar sem floresta se continuar o ritmo da última década neste tipo de exploração”.

Nuno Carvalho subscreve o ordenamento do território e, neste campo, o desordenamento florestal e a eucaliptização como outro problema ambiental do distrito “ignorado pelo poder político” e para o qual a “insensibilidade é “total”, alertou.

O presidente da Recilis, empresa criada para resolver o problema dos efluentes suinícolas da região, disse à Lusa que, neste momento, está em curso a constituição do consórcio que vai executar a ETES, onde se inclui esta empresa, a Águas de Portugal, a Luságua e a Fomento Investe.

David Neves adiantou que os suinicultores “têm sido o grande bode expiatório da bacia hidrográfica do Lis” e rejeitou que sejam os únicos responsáveis pela sua poluição.