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Cultura

Joaquim Vieira. Há 40 anos a construir a terceira galeria mais antiga do país

Os tempos de glória da Capitel vão longe mas, mesmo aos 93 anos, Joaquim Vieira não desiste da sua paixão.

Passavam poucos minutos das 16 horas daquele domingo, 3 de março, quando todas as objetivas presentes no Mercado de Santana se viraram para um homem e um quadro. Máquinas fotográficas ou telemóveis, tudo serviu para imortalizar a homenagem a Joaquim Vieira durante a Leiriartes, mostra que durante dois dias juntou, na cidade, 90 artistas de todo o país.

Os tempos estão difíceis para as galerias, mas Joaquim Vieira garante que a Capitel vai continuar aberta (fotografia: Joaquim Dâmaso)

Apresentado como “o patrono dos artistas de Leiria”, o dono da galeria Capitel recebeu emocionado a tela pintada pelos artistas da Leiriartes. “Fiquei muito sensibilizado. Estou comovido até. É formidável”, confessou Joaquim Vieira, 93 anos, há 39 à frente da terceira mais antiga galeria de arte do país.

Este ano, em setembro, a Capitel completa 40 anos. Foi o primeiro espaço de Leiria dedicado a exposições. “Gostava muito de arte e não havia cá galerias de arte. Por isso montei a Capitel”. O galerista recorda com saudade esses tempos em que o espaço mal chegava para os visitantes. “A princípio, a galeria estava sempre cheia de gente, de manhã à noite. Entravam, saíam… Estava sempre cheia”.

Quatro décadas depois, o cenário é outro. A cada exposição, a Capitel envia 1.200 convites para todo o país. “Se aparecerem 20 ou 30 pessoas já é bom… Sinto-me triste por não ir lá quase ninguém. Faço inaugurações e nada. Não sei porque isto acontece”, desabafa, lamentando sobretudo a ausência das escolas: “Mandamos convites para os diretores escolares, que antigamente lá iam com os jovens… Agora não. Não vai lá ninguém, nem se vende nada”.

Apesar da desilusão, não baixa os braços. Aos 93 anos, o galerista garante que vai continuar a programar exposições. “A Capitel dá-me genica. Vai continuar aberta e a mostrar artistas. Não estou a fazer conta de fechar a Capitel”.

Convivendo sempre de perto com quadros, nunca pintou na vida – “gosto de incentivar os artistas, mas de pintar nunca gostei”. Em vez disso, empenha-se no registo da história de Leiria, em artigos regularmente publicados nos jornais da cidade. Em breve, por exemplo, a Junta de Freguesia de Leiria lança um livro de Joaquim Vieira sobre diversas profissões da cidade, como carpinteiros, pedreiros e outros.

Foi pela mão de Joaquim Vieira que aconteceu a primeira exposição de Artur Franco em nome individual. Foi na galeria do nº12 da rua Engenheiro Duarte Pacheco, em 1991.

“Tem um papel muito importante na minha carreira e de outros pintores. É graças a ele que aqui estou, nesta caminhada tão bonita”, frisa o pintor de Leiria.

Artur Franco mostra, contudo, preocupação com o futuro da mais antiga galeria de Leiria: “Joaquim Vieira tem 93 anos e espero que viva muitos anos mais. Mas está na curva descendente. Estou curioso com o futuro da Capitel, porque a vida não é eterna. Vamos ver o que vai acontecer à Capitel”.

(Notícia publicada na edição de 7 de março de 2013)

Manuel Leiria
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

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