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Sociedade

Incêndios queimaram 68 mil hectares de floresta na região em 10 anos

Consegue imaginar 68 mil campos de futebol alinhados lado a lado? É essa a área florestal consumida pelos incêndios na região no decorrer dos últimos dez anos.

Consegue imaginar 68 mil campos de futebol alinhados lado a lado? É essa a área florestal consumida pelos incêndios na região no decorrer dos últimos dez anos. Até ao passado dia 31 de agosto, arderam cerca de 68.500 hectares de floresta em Leiria e Ourém – mais seis mil hectares do que a área total de Pombal, o maior concelho do distrito.

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Em 2005, 36.196 hectares de floresta foram devorados. Pombal foi o concelho mais fustigado (foto de arquivo: Joaquim Dâmaso)

Ourém (17,7 mil hectares), Pombal (14.200 hectares) e Figueiró dos Vinhos (8.217 hectares) são os concelhos da região mais fustigados pelas chamas, de acordo com o balanço feito pelo REGIÃO DE LEIRIA com base nos relatórios anuais do Instituto da Natureza e Conservação das Florestas.

Os números não surpreendem o comandante dos bombeiros de Ourém, Júlio Henriques. “A prevenção tem sido desastrosa, sabemos que temos aqui um barril de pólvora”, atira.

O concelho de Ourém – tal como boa parte da região – tem tido um 2013 tranquilo, mas ainda recupera do choque que foi perder 4.373 hectares de floresta no ano passado. Na altura, os bombeiros vi­ram-se impotentes perante as chamas, que levaram a vida a um homem e ainda destruíram uma fábrica de plásticos e alguns anexos de habitações.

“Não é que tenhamos falta de meios”, garante Júlio Henriques. São as condições da floresta – onde abunda o eucalipto e falta a limpeza – que condicionam o trabalho dos soldados da paz.

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos (corporação que, no ano passado, também perdeu um bombeiro no combate às chamas) partilha da mesma perspetiva.

“A carga de combustível existente nas florestas é enorme” e, “se nada for feito, os incêndios serão cada vez piores”, alerta Joaquim Pinto. E, ali, no norte do distrito, a topografia irregular e as características da floresta trazem dificuldades acrescidas aos bombeiros.

As estatísticas com­provam-no. O número de ocorrências registadas no Pinhal Interior é inferior ao contabilizado no sul do distrito; mas o balanço da área ardida mostra que é no norte que se registam os maiores incêndios. “A partir de Leiria, a floresta tem mais árvores folhosas, que resistem mais ao fogo do que as árvores resinosas, predominantes no norte do distrito”, justifica Joaquim Pinto.

Figueiró dos Vinhos foi o mais afetado

Coincidência, ou não, Figueiró dos Vinhos é, em 2013, o único concelho da região a registar incêndios com áreas ardidas superiores a 100 hectares. Mas é preciso algum sentido crítico na interpretação destes números, alerta o comandante Joaquim Pinto. É que, na altura de balanço, a área ardida é sempre indexada ao concelho onde a incêndio deflagrou – mesmo que, entretanto, as chamas tenham galgado fronteiras.

“Os maiores incêndios que tivemos este ano avançaram para Pedrógão Grande”, nota. O que significa que, na prática, a área ardida em Pedrógão Grande será igual ou até superior à de Figueiró dos Vinhos. Terão sido queimados por ali quase 300 hectares – ou seja, boa parte dos 354 hectares de floresta consumidos este ano no distrito de Leiria.

O balanço é, ainda assim, bem mais positivo do que o registado noutros pontos do país (este ano já arderam 94.155 hectares de floresta em Portugal). Como é que se explica que existam anos dramáticos para uma região, como 2005 e 2012, e outros comparativamente tão calmos, como 2013?

“Se há incêndios é porque alguém os ateia”, lembra o comandante dos bombeiros de Ourém.

(Notícia publicada na edição de 5 de setembro de 2013)

Sandra Mesquita Ferreira
sandra.ferreira@regiaodeleiria.pt