Há muitas histórias para (e por) contar sobre os Painéis de São Vicente, obra do séc. XV, fulcral na história da arte portuguesa e referência da pintura europeia. No Mosteiro da Batalha, J. Rosa G. propõem-nos multiplicá-las numa exposição que permite fitar cada uma das 60 figuras retratadas por Nuno Gonçalves – ou, na falta de certeza absoluta, o “incógnito autor”.

“Milagre – Elogio aos painéis de Nuno Gonçalves” explora um dos aspetos do “enigmático poder atrativo dos Painéis”: a arte e o mistério das caras. A partir de uma imagem de alta resolução dos seis painéis da obra, J. Rosa G. captou todos os rostos, destacou-os e isolou-os. Segundo o próprio, pretende-se encontrar “um arquétipo psicológico e o apoteótico sentido da sua expressividade”.

Mais do que as teorias e polémicas que rodeiam os Painéis, a exposição lança uma nova visão sobre a obra. Na Capela do Fundador somos convidados a olhar cada protagonista e interpretar expressões e fisionomias a partir desta sublimação de cada um dos retratados. E interrogamo-nos: quem são e o que pensava cada um daqueles elementos do clero, nobreza, povo e realeza?

“Faz todo o sentido esta exposição estar aqui”, sublinha o diretor do Mosteiro da Batalha, em plena Capela do Fundador. Joaquim Ruivo lembra a “tese singular” de Almada Negreiros, segundo o qual os Painéis teriam sido pintados para aquele espaço. “Algumas das personalidades retratadas nos Painéis [D. Fernando, D. Henrique, …], estão aqui sepultadas. Há uma ligação óbvia e direta”, diz, assumindo o “entusiasmo” por receber a exposição.

O diretor realça o mérito do projeto, ao compatibilizar “a vivência do contemporâneo num espaço mais antigo”: “Para os visitantes é uma surpresa. Faz parte do dinamismo que penso que um monumento deve ter”.

A discussão em torno dos Painéis fica aqui num segundo plano. J. Rosa G. deixa pistas na cronológia que integra a exposição: terá a obra sido pintada em 1470 ou em 1445, como sugere agora o matemático Jorge Albuquerque? O Mosteiro da Batalha, contudo, não foge à reflexão. Em breve contribuirá para a discussão, acolhendo uma palestra de Jorge Albuquerque sobre o tema.

A exposição devia terminar em março, mas continuará até setembro, avança Joaquim Ruivo: “As reações têm sido fantásticas, até do estrangeiro. Vamos aproveitar a oportunidade única para dar a conhecer a obra-prima neste espaço excecional”.

30 anos UNESCO

“Milagre – Elogio aos Painéis de Nuno Gonçalves” faz parte do programa de celebrações dos 30 anos de classificação do Mosteiro da Batalha como Património Mundial da Humanidade da UNESCO. Já este mês, também integrando as comemorações, dia 19 é lançado o livro “Como do Velho se fez Novo: o Estado Novo e a nova malha urbana e viária do Mosteiro da Batalha”, de Cláudio Oliveira. Até ao fim do ano há ainda conferências, exposições, tea­tro, um concerto de Rodrigo Leão e o I Congresso Internacional “Empresas – Um código emblemático europeu”.

(Notícia publicada na edição de 9 de janeiro de 2014)

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A Capela do Fundador recebe pela primeira vez uma exposição. “Está muito bem enquadrada, não invadiu nem agrediu em nada o património”, garante o diretor do Mosteiro da Batalha, Joaquim Ruivo (fotografia: Joaquim Dâmaso)