O novo presidente Orfeão de Leiria foi surpreendido com um défice nas contas do conservatório e preocupa-se com o fim do programa POPH. Mas quer reorganizar, racionalizar e sarar “feridas” antigas.

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Acácio de Sousa foi eleito em janeiro com 95,6% de votos favoráveis (fotografia: Joaquim Dâmaso)

 

Está há cerca de dois meses à frente do Orfeão. Como estão a ser os primeiros tempos?
Temos estado a estudar dossiês e as condicionantes desta casa. Como disse na assembleia geral de quinta-feira, trabalhamos em três frentes em simultâneo: a organização interna, reajustando alguns compromissos; o Música em Leiria, que está em cima da hora e não podemos deixar cair; e a questão financeira e os encargos assumidos com prestadores de serviço e trabalhadores.

Reajustes internos e questão financeira estão ligados…
Sim. A reorganização interna passa pela racionalização de recursos, planificação das atividades, com todo

s os encargos previstos, não só de custos de recursos humanos, mas também de produção, transportes, toners, papel…

Isso não era feito antes?
Não vou dizer que não era feito antes. Mas vamos levar isso muito em atenção. Temos de ter sempre presente aquilo que nos custam as coisas. Isso ajuda a criar prioridades. Procuramos evitar as chamadas zonas de desperdício.

Havia desperdício no Orfeão de Leiria?
As pessoas da casa estão a perceber a importância deste rigor. Algumas têm sentido na pele a instabilidade financeira. Ao perceberem isso, têm-se mostrado disponíveis para colaborar neste trabalho mais incisivo da racionalização de recursos.

Essa racionalização pode levar à saída de pessoas?
Não. Havia trabalhos periféricos que eram encomendados e estão a ser reequacionados e contratos de assistência que vão ter de ser negociados. Tem havido da parte das entidades disponibilidade, mas é evidente que toda a gente vive uma situação crítica.

Foi surpreendido com o que encontrou?
Não esperávamos um resultado negativo do exercício passado tão grande. Foram 150 mil euros, o que em termos de orçamento é um bocadinho mais de 10 por cento.

Como vai resolver esse “buraco”?
Com estes apertos. A casa vive da festa, mas tem de ser uma festa pensada e controlada. Temos de expandir-nos à medida dos financiamentos. Só com a certeza de que realmente conseguimos um encaixe para cobrir os gastos, é que nos podemos expandir. A estratégia tem exatamente de ser para superar estas dificuldades. Estamos a tentar perceber um novo espaço territorial, que pode ser interessante para o Orfeão, ao nível da contratação de espectáculos, formação, workshops… a Comunidade Intermunicipal, por exemplo. Passamos a ter um conjunto de municípios onde a formação em música e na dança está mais apurada, mas noutros pode estar menos e esse pode ser um caminho. Temos também contacto com o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota para atividades conjuntas. E uma outra atividade prevista, de grande dimensão e inédita, que terá algum retorno. Será anunciada em breve. Há nichos e caminhos que podem não estar muito explorados.

Antes das eleições denunciou ordenados em atraso no Orfeão. Subsistem?
Estamos a repô-los paulatinamente. Encontrámos uma tesouraria sem liquidez e sem capacidade para acorrer a situações aflitivas. Estava tudo dependente dos reembolsos do POPH [Programa Operacional Potencial Humano, financiamento comunitário para formação] e não havia fundo de maneio. Temos vindo paulatinamente procurar amenizar as coisas. Esta semana penso que podemos dar novo aconchego. É muito difícil criar expectativas. Com o pagamento que vamos fazer, fica a faltar um mês.

Estamos a falar há vários minutos e a conversa girou apenas em torno de financiamento e organização interna. Para quem está à frente de um conservatório de artes imagino que seria mais agradável poder preocupar-se mais com as artes propriamente ditas…
Sim… Ainda há dias dizíamos na direção que nós, que já cumprimos um percurso profissional, não tínhamos necessidade de vir para aqui. Isto é claramente um desafio, numa casa que me diz muito em termos de afeto, que é uma marca da região. Gostava de falar em cultura sem estar preocupado com o “vil metal”. Era o ideal: a produção e a fruição em absoluto. Não é possível. Hoje em dia é muito fácil falar-se das visões economicistas da cultura, mas se não houver um lastro financeiro, a produção cultural acaba por ser absolutamente amadora e residual.

Apesar do Orfeão ser, como refere, uma marca da região, as pessoas em Leiria conhecem muito pouco o trabalho feito pela instituição. Só em atividades como o “Há Música na Cidade”, quando o Orfeão – tal como outras instituições de Leiria ligadas à música – saem à rua é que se percebe um pouco o que se passa aqui dentro…
Estou de acordo que as pessoas não sabem o que se faz cá, mas é difícil não saberem o que é o Orfeão, e não é só em Leiria. Cá, basta falar em Orfeão e toda a gente sabe do que se trata. Lá fora isso também acontece. A marca Orfeão tem imenso potencial. Temos de capitaliza-la dando-lhe uso. Isso passa muito por um momento anual que é o “Música em Leiria”, um grande meio de projeção do Orfeão, e temos, cada vez mais, de recaptar público para o festival. E, depois, pela amostragem do que se faz. O Orfeão tem muita atividade feita aqui dentro e fora, nas escolas, somos chamados para muita coisa, mas a casa tem de se abrir, virar-se para a comunidade. Em finais de junho vamos ter uma atividade na rua para chamar gente a ver o que fazemos, com grande foco de curiosidade e interesse. Temos agora um programa com a Câmara, “Música nas Freguesias”, que para além de servir para levar a música a outros pontos do concelho, são autênticas embaixadas culturais. É marketing do Orfeão. Temos de criar cada vez mais um envolvimento em relação às pessoas que vão ver esses concertos e chama-las cá. Também estamos a pensar fazer um ou dois dias abertos para chamar alunos novos das escolas cá.

Há alguma mudança no “Festival Música” em Leiria?
Não há ruturas. É ligeiramente mais curto, mais uma vez por causa dos financiamentos. Estão sete concertos previstos e praticamente garantidos, de 30 de maio até 28 de junho. Esta semana fica decidido se há um alargamento de palcos a três ou quatro concertos fora de Leiria. Ainda estamos à espera de respostas. A programação parece-nos interessante. No final vamos propor ao diretor artístico uma avaliação concreta, ver o que se passou de melhor e de pior, e ver se para o ano os caminhos são estes e se pode ser reconsiderada alguma estratégia. É muito importante nós cativarmos o interesse do público.

Há a ideia de que o festival é um pouco elitista. Isso é responsabilidade da organização ou um erro de perspetiva da comunidade?
É responsabilidade de ambos os lados. Mas a organização tem de reforçar a sua estratégia para captar a comunidade. Não é tornar as coisas popularuchas. Mas a dessacralização da cultura é muito importante. Por vezes a cultura mais festiva e menos sorumbática é muito interessante e não perde qualidade. Mas tudo tem o seu momento. Isto também vai muito daquilo que as pessoas são levadas a conhecer. Não gostamos do que não conhecemos. Quando nos fazem perceber as coisas, e o sentido das coisas, passamos a gostar delas.

O caminho do Orfeão é mais rentabilizar o que faz do que cortar no que faz?
Há alguns projetos que vamos ter de reconfigurar para serem uma mais valia. Replicar o que se faz noutro lado, e às vezes replicar em tom menor, não vale a pena. Em um mês e pouco ainda não tomámos decisões. Até junho vamos ter de tratar disso. Mas tivemos uma notícia muito pouco agradável, que não toca só ao Orfeão, mas também a todo o ensino particular e sobretudo ao artístico, que é o fim do POPH. Já não é o POPH que vai financiar estes cursos no ano que vem e pode haver situações de grande delicadeza. Vamo-nos por em campo para perceber o que aí vem: fala-se em cortes de financiamento, num novo modelo de gestão, ainda não se sabe que tipo de despesas vão ser elegíveis… Podemos correr o risco de avançar para o próximo ano letivo sem saber o que é elegível. É muito ameaçador. Vamos contactar entidades públicas e outras escolas. A este nível, a nossa perspetiva é ter com as outras entidades que ensinam música e dança uma atitude concorrencial mas com uma grande margem de complementaridade e trabalho conjunto entre nós todos. Passa, por exemplo, por perceber as linhas com que nos vamos coser futuramente e passa por outras áreas de trabalho, que podem ser perfeitamente complementares, também ao nível da formação, que damos e recebemos.

Uma associação entre escolas?
Vamos tentar. Já temos contactos com algumas associações. Queremos aproximar-nos das escolas de dança e de música da região e, inclusivamente, da Associação de Filarmónicas. Isso aconteceu antes, mas com alguns sobressaltos, eventualmente. O trabalho conjunto é sempre mais proveitoso e isso não quer dizer que não sejamos concorrenciais.

Estão reunidas condições para o Orfeão reatar relações com a SAMP?
Eu não estou de relações cortadas com a SAMP! Eu e os meus colegas temos as melhores relações pessoais com as pessoas que estão na SAMP. Penso que não há ruptura institucional. Outro tipo de dificuldades que houve, não as vamos apreciar. Mas estamos interessadíssimos em dar um sinal, e já demos – à SAMP e a outras associações -, que queremos tomar um café, conversarmos e fazermos eventualmente coisas em conjunto. Se calhar um dia destes vai haver aqui uma conversa com toda a naturalidade. Só temos todos a ganhar com isso.

E relativamente a “O Nariz”? Houve também um desentendimento devido ao edifício do Orfeão Velho…
O edifício vai ser usado num acordo com a câmara numa rota. Quanto ao mais, temos ideias para valorizar o edifício, mas somos apenas rendeiros. Para qualquer coisa que se faça lá de vulto, temos de falar com o senhorio. Temos intenção de utilizar o edifício com ocupação nossa ou em partilha com outras entidades. Será sempre uma âncora cultural do centro histórico. Sei da controvérsia que houve com “O Nariz”. Não fomos abordados por eles e, pelo que sei, têm casa própria.

Comprava um carro descapotável para o Orfeão de Leiria?
Não. Admito que esta casa precisa de um carro de serviço. Estamos a circular, a ir a escolas, a patrocinadores, a Lisboa, em carros nossos ou na carrinha que transporta os alunos. Mas há outras necessidades mais prioritárias do que um carro. Um descapotável… Está a chover, até era desagradável [risos].

O Orfeão está prestes a fazer 70 anos, daqui a dois anos…
Estamos a pensar na data. Estamos a resolver a situação em que nos encontramos, mas temos de preparar condignamente e alegremente os 70 anos do Orfeão. Sem os dramas. Daqui a dois anos, estamos convencidos que podemos fazer uma festa sem gastos supérfluos e com um espírito mais desanuviado.

Manuel Leiria
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

(Notícia publicada na edição de 3 de abril de 2014)