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Escrevivendo: Um advérbio sem circunstância

Escrevivendo: Um advérbio sem circunstância
António Gordo, professor (ap.) antoniogordo@gmail.com

A continuada guerrilha do governo com o Tribunal Constitucional já passou a estilo de governação. Tão estranhamente quanto o “inimigo” escolhido não só é o árbitro supremo da constitucionalidade das leis como, por clara maioria, é da confiança política deste governo.

É verdade que a conformidade da Constituição com a vida real dos portugueses já tende para a ficção. Mas, se há desajustamento, proceda-se primeiro à alteração da Lei. Desrespeitá-la reiteradamente já parece paranoia ou uma sua variante contagiosa que afeta sobretudo aprendizes de ditador e lacaios de chanceler. Já procurei nome onde coubesse tal doença: um substantivo gordo, arrasador, de efeito letal desde a pronúncia, como por exemplo “pneumoultramicros­copicossilicovulcanoconiose” (mas sem a alternativa inócua dum sinónimo proletário como “silicose”…). Na penúria substantiva, impôs-se-me um advérbio: “anticonstitucionalissimamente”. Foi-me apresentado, em tempos, como “a maior palavra portuguesa”. Hoje, esta espécie de displasia de “constituição”, gerada por uma caterva de afixos, deixou de ser mera curiosidade linguística para o Guiness Book. Os muitos passos “troicados” de Coelho contra o palácio Ratton retiraram-lhe a condição de ”inutensílio” (Mia Couto) e, lamentavelmente, o palavrão encheu-se de propriedade como advérbio de modo. De modo de governar, quando devia ser de tempo e definitivamente passado.

(texto publicado na edição de 19 de junho de 2014)

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