António Gordo, professor (ap.)antoniogordo@gmail.com
António Gordo, professor (ap.) antoniogordo@gmail.com

De vez em quando surgem denúncias de maus tratos à língua portuguesa cometidos por pessoas que, por suas funções públicas, deveriam primar pelo bom exemplo, nesta como noutras matérias. Um caso recente, ampliado pela virulência dos “facebooks”, envolveu uma deputada que cometeu a proeza de fazer duma curta frase um buquê de grosseiros erros ortográficos. Justificou-se, depois, a senhora com uma dislexia antiga.

Mais do que os erros, surpreendeu-me a justificação. Não por eu contestar o argumento, mas porque a experiência profissional me ensinou que o respeito pelo problema e sobretudo pelas pessoas não dispensa o respeito pelo mais precioso património comum: a língua. Por isso, o disléxico consciente deve, no mínimo, evitar expor-se. Dá erros? Use corretor ortográfico. Ou peça revisão do que escreve. Ou não escreva… Do mesmo modo que quem não sabe falar em público deve levar o “improviso” escrito… Ou calar-se. Ou deixar outrem expor-lhe as ideias. A ajuda alheia é sempre mais digna do que a exposição da própria miséria.

E se a dislexia for uma desculpa simpática, da moda, para a própria ignorância ou incúria? Conheci casos suficientes para não embarcar facilmente em dislexias de conveniência. Até porque mais grave que todas elas é a insensibilidade crescente ao erro linguístico. Errar é humano – diz-se. E saber evitar o erro não o será ainda mais?

(texto publicado na edição de 14 de agosto de 2014)