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Arquitetos “chumbam” proposta de requalificação da Rodoviária

Está aprovado desde novembro o projeto de arquitetura apresentado pela Rodoviária do Tejo para alteração ao edifício onde funciona o terminal de Leiria, na avenida Heróis de Angola.

De acordo com a vereadora Rita Coutinho, que tem o pelouro das operações urbanísticas, a Câmara aguarda agora a entrega das especialidades para o pedido ser deferido e, posteriormente, ser emitido o alvará de construção.

A proposta apresentada é da responsabilidade da 4+ Arquitectos, com sede em Lisboa, tem um custo estimado de 652.589,10 euros e um prazo de execução previsto de dois anos.

Neste projeto o principal objetivo é “criar melhores condições para os utentes com a construção de uma nova sala de espera e com a alteração da direção de circulação no interior”, segundo a memória descritiva que chegou a constar na página online do gabinete de arquitetura, mas que entretanto foi retirada.

O objetivo é reforçado no processo de obra que deu entrada nos serviços da Câmara e que o REGIÃO DE LEIRIA consultou. O interior do edifício é objeto de profundas alterações. Uma das mais significativas é a mudança no sentido de circulação dos autocarros. No novo terminal, a entrada das viaturas passa a fazer-se pelo lado do Teatro José Lúcio da Silva e a saída pelo largo 5 de Outubro. A atual saída de autocarros pela Heróis de Angola dará lugar a dois espaços comerciais.

Esta alteração não compromete a possibilidade de a avenida vir a ser pedonal, uma questão sublinhada por Rita Coutinho. Outro “cuidado” que a vereadora garante ter existido por parte do Município é a sala de espera, de modo “a dar qualidade ao utilizador” e a “não haver partilha de ar” entre passageiros e autocarros.

Se no interior do terminal, a transformação é profunda, no exterior ela não é menor. A proposta apresentada pela 4+ Arquitectos altera as fachadas e dá uma roupagem diferente ao edifício desenhado por Camilo Korrodi na década de 50. A cor clara dá lugar à cor preta, com o objetivo de “reforçar o seu peso e presença, ao mesmo tempo que serve de pano de fundo para a imagem das lojas existentes nos pisos 0 e 1”. Também “a cobertura inclinada que marca atualmente o seu remate superior”, deixará de o ser “por razões estéticas”, refere a memória descritiva.

Rita Coutinho adianta ao REGIÃO DE LEIRIA que a inclinação da cobertura foi um dos aspetos que a Câmara pediu aos autores do projeto para reverem. “Compreendemos que queiram uma linguagem mais contemporânea, no entanto, há alguns elementos que não há necessidade de abandonar por completo”.

Essa, porém, não é a intenção da 4+ Arquitectos. Quem o afirma ao REGIÃO DE LEIRIA é Ricardo Antunes responsável pelo projeto. “Não nos foi pedido pelo dono de obra e o projeto de arquitetura foi aprovado com essa alteração. Tanto quanto eu entendo, não é necessário reverter. Das duas uma: ou reabilitamos o edifício original ou lhe damos uma renovação de imagem, são dois extremos, não há um intermédio”.

A eliminação da cobertura inclinada é um dos aspetos mais contestados por arquitetos ouvidos pelo REGIÃO DE LEIRIA.

Para Rui Ribeiro, a intervenção proposta para o exterior “é pior do que lá está” e destrói “um projeto modernista interessante do Camilo Korrodi”. No seu entender, a configuração do piso superior seria de manter, porque “é uma imagem daquela época” e “muito assumida pela cidade”.

Rui Ribeiro adianta que sempre defendeu a classificação de interesse municipal daquele edifício e lamenta que a ideia não tenha avançado. Salienta ainda a importância do terminal, enquanto interface de passageiros, como forma de combater a desertificação do centro histórico da cidade.

Para Helena Veludo, “a proposta agora apresentada faz tábua rasa do contínuo histórico” que Camilo Korrodi conheceu e valorizou. O arquiteto, que trabalhou com o pai Ernesto Korrodi, “desenhou um espaço de revelada qualidade urbana e arquitetónica”. A atual proposta “destrói formal e esteticamente o edifício existente e, de alguma forma, a própria identidade deste espaço urbano”, refere a arquiteta.

Helena Veludo sublinha ainda a incorreção que constava na descrição do projeto que esteve publicada online. Na página web da 4+ Arquitectos a Rodoviária era descrita como “uma obra do arquiteto Continelli Telmo”. Na verdade, o projeto existente é de Camilo Korrodi. Cotinelli Telmo – e não Continelli Telmo – morreu em 1948 ou seja em data anterior ao edifício da Rodoviária.

Ricardo Antunes, autor da nova proposta, assume e lamenta o lapso, mas garante que não foi por falta de análise e pesquisa. “Valorizamos o legado histórico dos colegas de profissão, mas tem tudo a ver com o que nós achamos que é mais indicado para um determinado projeto”, referiu.

Num artigo que assina nesta edição, na página 12, também a arquiteta Ana Bonifácio analisa e comenta o que o projeto de arquitetura do novo terminal “desfaz”.

O REGIÃO DE LEIRIA contactou a administração da Rodoviária do Tejo que não se mostrou disponível para comentar o projeto.

Artigo publicado na edição de 9 de maio de 2019 do REGIÃO DE LEIRIA

Patrícia Duarte
Jornalista
patricia.a.duarte@regiaodeleiria.pt

3 Comentários

  1. Filipe Nunes Silva

    Não pretendo opinar sobre as opções e direções que levaram os colegas arquitetos a delinear a estratégia e projeto apresentado, deixando essa tarefa aos críticos e analistas de arquitetura. Pretendo sim, deixar aqui uma visão de uma estratégia de longo prazo para o desenvolvimento sustentado da área urbana da Cidade de Leiria.
    Na minha opinião está-se a perder uma excelente oportunidade, com as intervenções que estão em curso na cidade, julgo que a área afeta ao Mercado Municipal de Leiria, volume/área poente, seria a localização ideal para o Terminal dos Autocarros, já o volume/área nascente, seria a localização ideal para a Loja do Cidadão, dada a área do espaço em causa comportaria igualmente o Mercado Municipal com uma escala atualizada. E o local onde hoje se localiza o Terminal de Leiria na Avenida Heróis de Angola, deveria ser ocupado com outras funções e atividades, como exemplo com o conceito “Time Out”, recorrendo-se a permutas e/ou outros soluções enquadráveis. Aproximando as pessoas do Rio Lis e Jardins, possibilitando a pedonalização e diminuindo a intromissão automóvel no centro urbano da cidade.

    Responder
  2. carlos oliveira

    NÃO CONCORDO QUE O TERMINAL DOS AUTOCARROS FIQUE NO MESMO SITIO
    A LOCALIZAÇÃO É A PIOR POSSIVEL ESTAVA MELHOR PERTO DO HOSPITAL E PERTO DA AUTO ESTRADA A1
    quem vem no expresso de coimbra ou do porto tem de sair do autestrada A1 Para entrar no centro da cidade desnecessariamente , na hora de ponta é um para arranca e quem vem do porto para lisboa é uma grande demora na viagem ou seja um pesadelo ….
    temos de pensar em todos e no interesse nacional …
    e a poluição e a confusão de carros vai continuar se ficar no mesmo sitio
    por favor retirem o terminal do actual localização para fora do centro da cidade

    Responder
    • F.Andrade

      Bem visto.

      Responder

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