A chuva intensa dos últimos dias já teve impacto na fronteira entre os distritos de Leiria e Santarém. O impacto da água no polje de Mira-Minde já se manifestou, sendo mesmo possível a sua navegação de barco.​

Manuel Matos, mora em Mira de Aire, e é um entusiasta do Polje. Acompanha de perto a evolução do nível da água e já faz contas aos próximos dias, planeando os passeios de barco que se vão seguir no lago que surgiu ontem, quinta-feira. “Está a encher e já tem sítios com água com mais de três metros de altura, já dá para vir de barco”, refere. “Para a semana vou fazer passeios”, diz.

Geralmente, a inundação no polje ocorre no inverno, mas não todos os anos. O polje  é uma depressão cársica plana, associada a um sistema hidrológico subterrâneo de nascentes e grutas. E neste caso, o polje de Mira-Minde é um entre as três dezenas de locais portugueses classificados pela Convenção Internacional das Zonas Húmidas como um Sitio RAMSAR.

O polje de Mira-Minde e vários pontos de onde brota água que o engorda (clique nas setas para percorrer a galeria de fotos)  Fotos: Manuel Matos

 

Os rios que ajudam a encher o polje começaram a correr no domingo, e tudo se precipitou ontem, quinta-feira, com o aumento do tamanho do “lago” que não pára de crescer. Não é frequente encher com esta rapidez, explica Manuel Matos.

Por vezes, esta massa de água atinge 2,5 quilómetros de comprimento e várias centenas de metros de largura. Para quem usa o barco, pode ser uma forma de ligar Minde e Mira de Aire, vilas vizinhas situadas nas fronteiras dos distritos de Santarém e Leiria, respetivamente.

Com o fim-de-semana à porta, é de esperar que se acumulem os curiosos que visitam Mira de Aire, e Minde, para visitar o recém renascido lago do polje. Mas na Nascente da Pena, já há muitos que aí se deslocam para a visitar. “É um espetáculo que vale a pena ver”, conta Manuel Matos.

Essa é uma das nascentes que brota nas Grutas de Mira de Aire, e abastece o polje, sendo responsável pelo seu enchimento, explica Carlos Alberto, presidente do conselho de administração das grutas.

Grutas fechadas

A intensidade da chuva que caiu nos últimos dias e que permite engordar o polje, também obrigou ao encerramento das Grutas de Mira de Aire à visitação durante esta sexta-feira. “A água acumulou-se no interior da gruta e ‘beijou’ a base do elevador, subiu uns 3,5 metros acima do passadiço”, conta Carlos Alberto.

“Não foi a maior cheia de todas, mas esta foi repentina”, conta. A gruta está dotada de equipamentos que permitem medir a quantidade de precipitação e, durante as 24 horas que começaram às nove da manhã de ontem, quinta-feira, caíram cerca de 97 litros por metro quadrado em Mira de Aire, revela.

A meio da tarde desta sexta-feira, Carlos Alberto adiantava que o nível da água dentro da gruta já tinha descido bastante, mas acrescentava ser necessário esperar para perceber se a chuva volta a cair com intensidade para determinar se as grutas reabrem este sábado: “hoje as grutas estão fechadas, amanhã logo se verá”, conclui.

Nota: artigo corrigido a 3 de janeiro de 2020, visando tornar claro que a precipitação contribuiu para o enchimento do polje e não para o seu surgimento. 

Carlos S. Almeida
Jornalista
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt